Pequeno Polegar

Pequeno Polegar é um jovem jornalista que se acha “radical chic”, disposto a acompanhar nesse blog os fatos pitorescos do cotidiano, falando de personagens e de personalidades que costumam pisar na bola pelo meio mundo. Mas, com toda consideração.

Considerado comunista, o preço da gasolina e as piabas de Geni Maravilha

3 de Janeiro de 2018 • 10:13 am

Considerado acordou nesta quarta-feira, 3, disposto a tomar um banho de mar no Francês. Ligou para os amigos de sempre e apenas Geni Maravilha topou ir com ele. Geni é um caboclo sertanejo de quase 1,90m que topa qualquer parada quando o assunto é diversão a 0800.

O mar anda de fato mais que convidativo. E no Francês a turistada se esbalda na areia fina e nas águas mornas do lugar. Considerado pediu o carro da avó e ela lhe entregou a chave com uma observação providencial. “Bote gasolina que só tem o cheirinho”, disse.

Liso, ele ligou para Geni e apelou para irem no carro do amigo. Mão fechada, ele recuou: – Você me convida e agora eu tenho que ir no meu carro para ser seu motorista? Te enxerga moleque!

Depois dessa, sem que avó Nildinha desse conta, Considerado deu um baculejo de R$ 20,00 na carteira dela. O dinheiro da gasolina. Saiu de carro com Geni e foram abastecer. Entregou o dinheiro e o frentista foi rápido.

-Já colocou meu amigo?

-Já sim, senhor.

-Tão rápido.

-O senhor chega com R$ 20 e a gasolina está de R$ 4,28 o litro…

Foi aí que ele se tocou. O dinheiro só deu para 4,6 litros. Com essa quantidade de gasolina até chegariam na praia do Francês, mas voltar só se fosse empurrando o carro. Geni Maravilha reagiu:

-Ah irmão, assim não vai dar não.

-Por que não vai dar?

-Não está vendo que a gente vai ficar no meio do caminho?

-Se fosse no carro do Batoré você ia.

-Mas o Babá só anda de tanque cheio…

Irritado, Considerado passou a xingar meio mundo de gente. Danou-se a falar do cartel dos postos de combustíveis, atacou o governo por que o Estado tem a gasolina mais cara do País, esculhambou o prefeito por causa dos pardais espalhados na cidade e, de repente, se virou para Geni Maravilha e disparou:

-A culpa é sua.

-Por que a culpa é minha?

-Por que você é um coxinha filho da puta.

-E daí, eu por acaso sou dono de posto de gasolina?

-Mas foi bater panela lá em Maravilha para botar esse vampiro do Temer no Planalto.

-Eu bati panela coisa nenhuma.

-Bateu sim e agora está aí caladinho, com as panelas todas sujas.

-Quer saber, não vou sair com você mais não seu comunista…

-E você eleitor do Bolsonaro, aquele imbecil de galocha.

-Você diz isso mas sua avó vai votar nele.

-Não fale de minha avó.

-É melhor eu ir embora mesmo, por que você, sua avó e agora o Fumacê, namorado dela, é tudo comunista.

-Vamos parar de brigar e a gente vai lá para tua casa, tu assas aquelas piabas que trouxesses de Maravilha, a gente chama o Batoré e faz a farra.

-Eu não falei? Isso é típico da esquerda caviar que quer viver na moleza comendo as coisas dos outros.

-E quem foi que disse que eu quero lhe comer coxinha FDP?

 

 

 

 

 

 

 


Considerado, Zé Fumacê e dona Nildinha na ‘casa de shows’

1 de Janeiro de 2018 • 11:59 am

Depois de ter ido a um ritual de Umbanda no dia 31 de dezembro de 2017, para fazer jus  ao contexto religioso ao qual está inserido, o Considerado se preparou todo para a virada do ano.

Sua intenção era assistir à queima de fogos na praia de Ponta Verde na companhia da mãe e da avó, na esperança simbólica de energizar a família.

Vestiu-se de branco, preparou um Cooler de cervejas e espumante se apresentou à família no mais puro estilo pai de santo, pronto para receber as bênçãos do Ano Novo.

A mãe não é muito de festa. É uma espécie rara de recatada e do lar. Mas a avó é completamente diferente. Tão diferente que chega a ser exibida. Gosta mesmo de um sassarico.

Antes de visitar o terreiro de Umbanda, Considerado foi ao bar do Lula Manguito para encontrar os amigos de farra: Batoré, Belleboi,Tonelada, Purê, Cobra Coral, Braço de Pistola, Oio de Jeep, Silvio Paizinho (padrasto do Batoré),Rui Caceteiro, Bill Arapiraca, Galboi Júnior, Delegado, Pastor, Magistrado, Portuga e Papada da Antonieta. Faltou apenas o Coleguinha que deixou uns penduras no mercado e viajou com a família.

Enfim, à noite chegou e ele estava pronto para o desfile à beira mar. Estranhou o fato de a mãe não estar preparada para sair e a avó em um vestido vermelho, quase transparente, com um decote  em “V” para lá de insinuante. Encucado com a roupa de Dona Nildinha perguntou: -Vó, a senhora vai sair comigo com esse vestido de perua? E veio a lei do retorno: -É da sua conta?

Viu logo que não era da conta dele e foi falar com a mãe. Ficou sabendo que ela não iria para queima de fogos. A mulher disse-lhe que iria à missa e depois se recolheria para dormir sem ninguém por perto para incomodar.

Assim, lá vai o Considerado apressar Dona Nildinha para sair:

–Vamos logo vó para encontrar um bom lugar na praia.

– E quem disse que eu vou com você?

-E a senhora vai para onde e com quem desse jeito?

-Vou sair com um amigo seu…

-Um amigo meu?

-Sim. E qual é o problema?

-E quem é ele?

-O Zé.

Considerado ficou perdido na história. A mulher, pela roupa que usava, parecia, guardada as devidas proporções, a dama da lotação. E piorou quando ela ligou a Playlist do celular e a música surgiu na voz de Reginaldo Rossi: Garçom olhe pelo espelho/ A dama de vermelho que vai se levantar…

-Que  Zé é esse dona Nildinha?

-Aquele que vocês chamam de Fumacê.

-O Zé Fumacê?  Meu Deus…

-Meu Deus o quê? Que eu saiba ele é gente fina e tem uma boa posição no mercado automobilístico.

-Que eu saiba a boa posição dele é no mercado de Floresta, lá em Pernambuco.

-Besteira, só por que ele gosta de um baseadinho…

-Não é nada disso, mas ele é mais conhecido como Zé do Carvão.

-Por que Carvão?

-Carvão é o nome de um inferninho lá na Levada, ao lado do Mercado da Produção, que ele costuma frequentar.

-Inferninho que nada, ele disse que é uma casa de shows e que hoje vai me levar lá.

-Lá é um puteiro vó.

-E daí, depois de uma fumacêzinho ninguém liga mais para nada…

-Mãe, vamos internar essa velha que ela endoidou.


Considerado protesta no Dia de Finados contra o presente de ‘Beleboi’ para Carneirão

3 de novembro de 2017 • 12:18 pm

Considerado foi à festa de aniversário de 70 anos do amigo “Carneirão”, no Boteco do “Pontão”, lá para as bandas do Jardim Petrópolis, exatamente no Dia de Finados. Mas saiu de lá revoltado por conta de um presente que o aniversariante recebeu.

Encontrou-me com uma cara de pesar e resmungando sem parar. Percebi que estava querendo desabafar e dei asas para que o fizesse, pois, como sempre, seria eu todos os ouvidos.

-O que houve amigo que você está aí todo nervoso, meio irritado? Indaguei. E ele com o semblante fechado fez ar de mistério, como se estivesse pensando no que dizer…

Sabia que iria falar. Precisava apenas de um pouco mais de paciência para vê-lo explodir na fala como quem toma água das primeiras chuvas de janeiro. Só que diante da demora, insisti:

-Amigo fale por que estou aqui para lhe ajudar, caso você tenha mesmo um problema.

Resmungou o quanto pode e, de olhar fixo no céu, pontuou: – Com a morte não se brinca!

Comecei a me preocupar por que, pelo dito, a história era séria. Tratei de pedir que esclarecesse logo os fatos pensando, evidentemente, em contribuir na solução de um problema que já envolvia a morte e em uma data por demais emblemática.

-Conte-me tudo Considerado, pois estou ficando preocupado…

-Nosso amigo “Beleboi” passou dos limites.

-Nosso amigo quem?

-Beleboi. É um amigo meu, do Carneirão, do Pastor, do Batoré, do Tonelada, do Lobisomem, do Bill Arapiraca, do Oio de Jeep, do Purê, do Fumacê… Da turma toda

-Sinceramente, isso é que é uma turma…

Mas, de repente ele para de falar e começa a xingar novamente o amigo “Beleboi”  por conta do tal presente que foi entregue ao outro no Dia de Finados. O cara estava indignado e deixou a entender que saiu da festa em protesto contra seu amigo de turma.

-Acontece Considerado que você xingou à vontade e eu estou sem entender nada.

-É que o Beleboi não tem consideração…

-O que ele fez?

-Cada um da turma levou um presente normal. Menos ele.

-O que você deu?

-Uma cachaça da boa…

-Grande presente…

-Foi uma cachaça cara que ele gosta.

-Sim e esse Beleboi levou o quê?

-Um carnê.

-Não entendi…

-Um carnê do Previda com 12 prestações.

-Do Previda? Aquele Plano Funerário?

-É.

Meu Deus…

-Mas só tinha uma prestação paga!

 

 


Considerado, Dr. Veiga e Coleguinha no bar da Gia em Paulo Jacinto

19 de agosto de 2017 • 10:13 am

Em andanças na beira do rio São Francisco, em Penedo, Considerado teve um mal estar e procurou um médico na cidade. A namorada que lá arranjou, uma jovem da típica aristocracia penedense, logo ligou para o consultório do Dr. Veiga e garantiu o atendimento. A moça usou o prestígio da família para encontrar vaga imediata.

Agora imagine o Considerado, um malandro contumaz, arranjar uma namorada da elite local. Uma moça com charme e beleza que praticamente não anda: flutua. Mas, o gordinho com seu papo de enrolar turbina de avião se deu bem. Até quando é outra história.

O certo é que o cara chegou ao consultório e o atencioso Dr. Veiga passou examiná-lo, depois de ouvi-lo sobre o ocorrido e constatou que não era nada demais. Sombra e água fresca resolveria tudo sem maiores problemas. Era o que ele mais queria, desde que trocassem a água pela cerveja.

Mas o médico advertiu para não fazer estripulias como exagerar na cerveja, comer jacaré, entre outros pratos exóticos que os bares da cidade oferecem.

-Mas doutor Jacaré é um prato bom mesmo?

-Há quem goste. Mas eu não sou chegado.

– Por quê?

-Tenho trauma. Meu tempo de comer essas coisas já passou.

O médico praticamente caiu na armadilha do sujeito.

A partir daí Considerado passou a provocá-lo para saber das histórias passadas. Jeitoso, cheio de expressões corporais, nosso amigo acabou convencendo o doutor a lhe contar uma história sobre comida exótica.

Natural de Paulo Jacinto, quando garoto, estudante de medicina, Dr. Veiga foi frequentador assíduo do bar da Gia. O boteco, que ficava em uma rua à beira do rio Paraíba, era famoso. Bem frequentado pelos jovens do lugar.

Gia à milanesa

Estudante da Ufal no inicio dos anos 70, Veiga reuniu um grupo de amigos de turma e os levou para o Baile da Chita, festa tradicional dos paulojacintenses. A turma era grande, mas todos ficaram hospedados na casa dele. Chegaram na sexta-feira de trem.

A rapaziada, então, foi devidamente apresentada ao bar da Gia e a maioria quase não queria mais sair de lá. Eles bebiam uma cachaça da época chamada Mucuri e se empanturravam de Gia. Os pratos eram para todos os gostos: Gia ao molho de jurubeba, à cabidela, à milanesa e Gia frita puxada ao limão e alho.

Considerado salivou… Encheu a boca de água e quis saber se a cidade ficava perto por que agora queria conhecer o bar de qualquer jeito.

-Sem chances meu rapaz.

-Ora, por quê?

-O bar fechou logo depois que os meus amigos passaram por lá.

-Mas esse negócio seria hoje um “big case” da gastronomia alagoana.

-Mas, os meus colegas quebraram a casa.

-Como?

-O líder da nossa turma era o Coleguinha, um galego alto, bom bebedor e comedor de Gia…

-E o que ele fez?

-Ele arrastava a turma para o bar, passava a tarde inteira e mandava pendurar a conta. O dono em confiança foi aceitando.

-E daí?

-Daí disseram ao homem que pagariam na segunda-feira quando fosse a hora de ir embora. Mas, no domingo pegamos o trem para Maceió.

-Doutor esse Coleguinha é um galego do dedão?

-É ele mesmo!

-Ah, mestre, vou falar para minha vó Nildinha.

-E o que tem ela?

-Ela é tarada no dedo dele.

-Que é isso rapaz?

-Não se incomode não doutor, a velha só fala em se consultar com ele por causa do dedo.


Considerado, os pitus do Batoré e o caminhão de coco do Yaldo

8 de julho de 2017 • 1:21 pm

Considerado, todo enxerido, foi tomar umas cervejas com pitu de Porto Real do Colégio na casa do amigo Yaldo Leite, fiscal de renda aposentado que, na adolescência, andou dando uns amassos em Nildinha, avó dele, lá para as bandas de Viçosa. Não propesrou, mas ficaram amigos.

Tanto, que Considerado, vez por outra, encontra o fiscal seja em um boteco ou até mesmo na varanda do” quase ex-avô”, lá no Bananal, reduto tradicional da família Passos e Leite.

Neste sábado, reuniram-se para o aniversário do Batoré que é da mesma turma. Encontraram-se no apartamento do Yaldo, no Pinheiro, e iniciaram os trabalhos com o pitu cozido na água e sal.

Hora de ir à festa no Bar do Lula Manguito, nosso amigo fiscal cismou que tinha de levar um presente e considerou que poderia ser uma porção do pitu recém chegado das águas renevodas – pelas chuvas  – do velho Chico.

Considerado foi contra. Queria devorar tudo alí mesmo.

-Não senhor, o Batoré merece minha consideração – Reagiu Yaldo

-Que nada vovô, o babá vai pegar esses pitus e vai dar a um promotor cunhado dele.

-Não senhor, vou levar pra gente comer lá…

Enquanto o dono da casa se levantou para se arrumar e sair, Considerado pegou um saco plástico colocou os pitus dentro e escondeu. Logo então foi questionado pelo sumiço do pacote de crustáceos. A encrenca voltou de novo.

-Devolva que vou levar pra ele.

-Um pacotinho de nada desses Yaldo não vale a pena.

-Pacotinho não, aí tem mais de 100 unidades.

-Então conte pra vê se tem?

-Cuidado. O útimo  que fez isso comigo eu mandei pra puta que pariu até hoje!

-E quem foi?

Ele resolveu contar uma história de seu início de vida como fiscal de renda no posto de Delmiro Gouveia. Era Semana Santa e apareceu um caminhão baú carregado de coco. Parou o carro, pediu a documentação da carga e a nota dizia que havia 5 mil unidades. Apressou o despacho por causa da chuva intensa e já ia liberar o caminhão, quando o chefe apareceu.

-E aí tá tudo bem?

-Sim. Esse aqui está tranquilo. Já vou liberar.

-Como assim tranquilo, conferiu a carga?

-Sim é uma carga de 5 mil cocos

-Você contou?

-Como é a história, chefe?

-Vá lá contar pra saber se tem 5 mil cocos mesmo.

-A nota está dizendo isso.

-Mas tem de contar um por um…

-Vá contar você, seu pai e a puta que lhe pariu!

 


Considerado e Batoré em um debate alto nível sobre a reforma trabalhista

28 de Abril de 2017 • 10:17 am

De repente o Considerado começou a se questionar sobre a reforma trabalhista e esbravejar em casa contra os deputados que votaram a favor do projeto do Temer. – Traidores do povo!

Assustou até a própria avó que assistia uma novela em um dos canais abertos de TV. Dona Nildinha chegou a pedir-lhe explicações sobre a reforma, mas sem ter base para discussão, o neto desconversou.

Por isso mesmo achou que estava na hora de se informar melhor sobre o tema. Sabia que do parlamento sequioso para atender a interesses de banqueiros e megaempresários do País, não poderia vir nada de bom. Mas, faltavam-lhe detalhes.

Bateu-lhe a ideia. Quem é o cara que é acadêmico de Direito, antenado nas questões trabalhistas, foi assessor de governador e de procurador da Assembleia? Quem? O indefectível Batoré.

Logo, pegou o celular e marcaram um encontro no Bar do Lula, atrás do Cepa. Entre uma cerveja e outra, Considerado começou a perguntar o que era essa reforma que ele já era contra mesmo sem saber direito.

Two Gang Members With Tattooes Talking At The Table, Beer Bar And Criminal Looking Muscly Men Having Good Time Illustration. Part Of Series Of Dangerous Chunky Guys At The Pub Having Drinks Cool Vector Drawings.

Diga amigo, essa reforma vai me prejudicar?

-Você, Considerado, não estou entendendo…

-Esse negócio de reduzir salário, parcelar dinheiro das férias, não pagar multa do FGTS isso prejudica a gente.

-A gente quem?

Os trabalhadores…Você parece que não sabe de nada Batoré.

-E eu sou deputado ou algum corno para andar misturado com isso!

Calma babá…

-Babá é puta que pariu e o corno que amassou.

-Meu Deus o homem endoidou...

-Quem endoidou foi você!

Eu, por quê?

-Por que anda com essa história de reforma trabalhista.

É meu direito de cidadão.

-Só que tu nunca desse um dia trabalho pra ninguém…Nem carteira de trabalho tem.

É lasca, esse pessoal da direita só sabe agredir!


Considerado e a ameaça da Lava Jato na campanha de Joaquim Gomes

14 de Abril de 2017 • 11:14 am

Dona Nildinha, avó do nosso amigo Considerado, amanheceu hoje calçada nos tamancos e tentando o exercício da paciência para não explodir o verbo na sexta-feira da paixão. Há mais de uma semana que ela anda agoniada. Nada consigo, propriamente, mas com o neto.

Considerado já está há mais de 20 dias sem sair de casa. Trancou-se no quarto e não quis saber de ninguém. Anda cabisbaixo, meio depressivo e, obviamente, passou a preocupar  todo mundo. Liga a mãe, os companheiros de copo da Confraria do Rei, do Grutinha, enfim, dos bares onde costuma andar e nada a declarar. Só atende o amigo Batoré.

Car Self Wash

Dona Nildinha chegou para vizinha e disse que já pensou em chamar uma ambulância do Portugal Ramalho para levá-lo.  “Se não for doença grave, com certeza é dor de corno”, disse ela.

Depois de apelar para as orações, gentilezas de toda ordem – e não ser atendida – ela resolveu bater na porta do quarto com o salto do tamanco. Deu certo. Ele não suportou o labafero dentro de casa e abriu à porta.

-Você endoidou, está com Zika, Chikungnya ou levou gaia, meu filho?   – A velha foi direta. Sonolento, Considerado se disse preocupado, mas não estava a fim de falar sobre seus problemas.  –Não pode ser. Você mora aqui, come e bebe de graça; que problemas você tem?  Depois disso ele percebeu que precisaria desabafar e encontrar uma solução para seu estado depressivo.

-Desembuche logo meu filho ou lhe interno num manicômio.

-É a Lava Jato, vó.

-Como, você comprou um lava jato?

-Não, criatura. Há um mês me disseram que meu nome está lista.

-Que lista, infeliz?

Vendo que o diálogo iria ser difícil ele abriu o jogo. Contou que na campanha eleitoral passada trabalhou, a pedido de um amigo, o Pastor, para um candidato a vereador de Joaquim Gomes (JG). Em dado momento da batalha pelo voto, o candidato sem dinheiro pediu para ele ir falar com um deputado federal famoso, para saber do SFF, que seria o Sistema Facilitador Fahrenheit. A velha pediu detalhes por que não estava entendendo nada. Descobriu que a nomenclatura representava um código para que se falasse em financiamento de campanha. No caso, “fahrenheit” significava dinheiro para caixa dois, propina, enfim. E Considerado foi ao encontro do deputado em um hotel da beira mar de Maceió, tendo como testemunha o amigo Batoré. Foram bem atendidos. O político, então, entregou um pacote dentro de um saco plástico que logo chegou ao destinatário em JG.

-E o que tinha no pacote Considerado?

-Era o “fahrenheit” vó. Quer dizer, eu soube depois que eram mais de R$ 200 mil.

-E daí?

E daí que o deputado está enrolado na Lava Jato e avisou a todo mundo que me entregou o dinheiro. Eu posso ser preso.

-E você fez o quê, com o dinheiro?

-Eu entreguei o pacote ao vereador que é conhecido lá em JG como “Fahrenheit”.

-Então vá lá e diga que entregou tudo e não ficou com nada.

-Não posso, eu não sou delator…

-Então vai preso né?

-A minha raiva é que o vereador perdeu a eleição e ninguém viu a cor do real.

-E o Batoré?

-Esse aí, coitado, chora mais do que mulher na hora do parto.

-E por quê?

-Por que não recebeu nenhum troquinho…


Considerado esquece avó e ela perde o desfile do Filhos da Pauta

24 de Fevereiro de 2017 • 11:08 am

Nesta sexta-feira, 23,  Considerado chegou em casa e encontrou dona Nildinha fantasiada de índia, com todos os adereços,  uma lata de cerveja na mão, o som ligado à toda altura e cantando sem qualquer ritmo ou afinação: – Mulher casada que anda sozinha, é andurinha, é andurinha…

Neto zeloso, ficou a olhar a cena e a imaginar o que estava acontecendo com sua avó. É bem verdade que os tempos são de folia e o brasileiro faz tudo na vida para ter um carnaval. É quando as pessoas se entregam e fazem exatamente nesta época o que gostariam de fazer o ano inteiro, mas a sensatez fala mais alto nesse momento. Afinal, a vida é muito mais do que a festa de momo.

Mas, quem gosta de carnaval conta nos dedos horas e minutos para chegar a festa e deixar rolar. Dona Nildinha é uma dessas pessoas que brincou o carnaval à vida inteira com amigas, amantes, família, enfim, com todos que lhe proporcionassem uma boa farra.

Agora em casa, sozinha, fazendo o fazendo o passo, deixou o neto boquiaberto. Não sabia se sorria com a velha desajeitada ou se chorava. Sobretudo por que lhe veio a mente o pensamento dividoso sobre o estado de saúe dela.

-O que está acontecendo minha vó?

-Estou lhe esperando pra gente ir para os Filhos da Pauta!

-O bloco já passou. Foi na semana passada.

Furiosa, ela baixou ovolume do  som, parou a coreografia e reclamou do neto que ficou de lavá-la ao bloco do pessoal da imprensa nas prévias de Jaraguá. “O Filhos da Pauta” desfilou na sexta-feira, 17, à noite. Foi um sucesso. Dona Nildinha certamente teria se esbaldado ao som do frevo “Ói nós aqui de novo, no meio do povo/ fazendo o carnaval, somos gente batuta, somos filhos da…”

Mais do que revoltada ela partiu para cima dele e bradou:

– Você é um filho da puta mesmo, nunca cumpre o que diz.

-Tenha calma vó.

-Calma, uma porra. Você daria pra ser politico, que mente e rouba o ano inteiro.

-Eu viajei e não pude vir aqui…

-Não tem desculpas. Ora viajar…Viajei um cacete!

O clima obviamente ficou tenso. Considerado com as barbas de molho recolheu-se a um canto da casa e passou a ouvir o sermão. O pior é que tinha ido ao encontro dela, exatamente para pedir-lhe o generoso “auxílio carnaval” para a próprio deleite em Olinda. Depois dessa se encolheu e fez menção de sair casa.

-Fique aí, seu orelha seca…

-Mas a senhora está muito nervosa…

-Você sabe que eu gosto de carnaval. Se não podia vir mandava aquele bexiguento do seu amigo Batoré me levar, ou aquele outro Fofa Chão, pé de cana.

-Deixa a turma  quieta vó. Eles não gostam de carnaval…

-Mentira que aquele que vocês chamam de Beleboi está indo para o carnaval do Recife…

-E daí, o que tem isso demais?

-Nada. Mas, se aquele galego irmão dele, que tem o dedo do novembro azul, for também eu vou atrás.

-Olhe a pior coisa do mundo é uma velha assanhada.

-Velha é a tua mãe que vive comendo purê e tentando namorar o “Oio de Jeep”, mas não consegue.

-Por que ela não puxou a você que só gosta de político safado e soldado embriagado…

-Mas estou aqui enxuta e pronta pra me divertir. E se não tem Filhos da Pauta vou tomar uma no bar do Suruagy.

-Quer saber, ou a senhora está biruta ou é mesmo uma filha da puta!

 

 

 


‘Gripado’, Considerado não vai à confraternização dos ‘gabirus’ no Horto

17 de dezembro de 2016 • 12:53 pm

Dezembro, fim de ano, as confraternizações pipocam por todos os lados. É preciso um fígado de aço para aguentar o ritmo. E quem parece tê-lo é o amigo Considerado. Do último dia 10 para cá já foi a pelo menos 12 confraternizações.

Neste sábado, 17, ele teria que ir à “confra” da turma dos “Gabirus”. Imagine em que turma o sujeito foi se meter. A festa é organizada pelo amigo dele, um certo “Tonelada”, que muitos chamam de “Código de Barra” e outros de “Fofa Chão”. Evento marcado para a fonte do Jardim do Horto, com uma turma de machos tipos esponjas. Alguns já chegando ao estágio de cobra de farmácia.

Ir ou não ir? Eis a questão. Chegou à casa da avó, dona Nildinha, com esse dilema. “Não sei se vá, não sei fique”… De tanto resmungar pelos cantos a velha quis sabe o que estava havendo com o neto. –Você está passando mal, meu filho?

Disse-lhe que não era nada, apenas estava em dúvidas sobre uma festa, mas já havia decidido que não iria.

-Mas, logo você que adora uma boca livre?

-Que boca livre o quê, lá tenho de pagar 65 mangos!

-E que festa é essa, quem é que vai?

-É do Gabi?

-É do Gabrielzinho filho do Capitão?

-Não vó é a turma dos Gabirus!

-Minha nossa, onde você está metido rapaz?

– Deixe pra lá que a senhora não vai entender…

Como é que uma avó zelosa vai ficar quieta, sem preocupação, sabendo que o neto, criado com ela, esta envolvido com a turma dos gabirus? Considerado passou a se preocupar também por que sabia que Dona Nildinha não deixaria o assunto pra lá. Ela ciscou para um lado e outro e partiu para o ataque.

Considerado, meu filho, diga que turma é essa? Aquele Batoré está metido nisso?

-São todos amigos minha vó.

– Mais quem são eles, eu conheço algum?

-O Batoré, o Braço de Pistola, o Oio de Kombi, o Banda Larga, o Belleboi, Purê Vencido, Língua Colada, o Monge, o Fumacê, o Lecitação…

-Chega pelo amor de Deus. O que esse povo faz da vida, de onde você os conhece?

-São companheiros de farra, degustadores de uma boa vodca, de uma cerveja gelada.

-Você quer dizer que são todos cachaceiros…

-Não vó é tudo gente boa. Inclusive aquele médico que a senhora gosta, o Coleguinha…

-Ah, ele é maravilhoso, galegão… Mas esses outros rafameia e esse tal Batoré não me agradam…

-Mas eles gostam da senhora. Menos o Batoré, claro.

-Se você não vai qual desculpa vai dar?

-Vou dizer que estou gripado.

– Isso vai lembrar pra eles aquela lista da Odebrecht, onde sua turma se enquadra bem.

-Quer isso vó, deixe de besteira…

-A lista é uma desculpa melhor pra você.

– Qual é o Mané lista?

– É só Você dizer que está Gripado por que foi ao Candomblé, bebeu Campari, comeu Caranguejo e Purê, ficou de Boca Mole e Nervosinho quando viu um Bitelo e agora está aí Decrépito e Todo Feio. Afinal, é tudo gabiru…

 


Considerado ganhando uns trocados com muamba do Guaíba e o queijo “Oião”

13 de novembro de 2016 • 12:12 pm

O Natal está chegando e nessa época, invariavelmente, o queijo do reino é vendido em grande escala nos supermercados alagoanos. Mas, não só lá. O Considerado, por exemplo, costuma faturar uma grana extra, vendendo um queijo do reino a amigos. Consegue de um colega dele atravessador, mais conhecido como “Guaíba”.

Considerado vende queijo, uísque, bacalhau e até filé de Tilápia, que pega em consignação do atravessador. Bem relacionado, nosso amigo tem uma clientela seleta. Advogados, marajás da Assembleia Legislativa, delegados, magistrados, fazendeiros, médicos, procurador, executivo das telecomunicações, comerciantes e até genros famosos, que, muitas vezes, pagam com o cartão das sogras.

A clientela é boa por que o preço é bem abaixo do mercado. Como a humanidade gosta de levar vantagem em tudo, nenhum cliente dele procura saber a origem do produto. Pelo contrário, compram e recomendam atestando a qualidade da muamba.

Na semana que passou ele pegou com o “Guaíba” um lote de produtos e foi anunciar para a clientela. Final de ano, muita confraternização, brindes de lado a lado, um uísque vai sempre bem. Um queijinho então, nem se fala. No lote que recebeu veio um queijo do reino de marca diferente, um produto novo. Na sua carteira de cliente um marajá da Assembleia, conhecido como “Oio de Jeep” é um dos maiores consumidores do produto. Compra pra comer, presentear e até fazer farra com amigos, no bar do Lula, do Gabi ou no Grutinha.queijoreino

Sem saber ao certo como seria a receptividade do novo produto, ele deu uma lata (tipo Jong) para o marajá fazer uma degustação em sua roda de amigos. Entrega feita, produto provado. Curioso e aflito, Considerado quis saber o que a turma achou do queijo?

-E aí “Oio de Jeep”, o queijo é bom?

-Oio de Jeep é a minha “papa-vento”!

-Calma, amigo, eu só quero saber do queijo.

-Tudo bem, mas me respeite! E pode vender essa muamba…

Como não ficou convencido, levou outra lata para a casa da avó. Dona Nildinha estranhou o queijo de rótulo estranho. Mas resolveu provar para ajudar o neto ganhar os trocados de fim de ano.

-Afinal meu neto que queijo é esse?

-Queijo do reino…

-E de onde vem?

-Deve ser de Minas, como todo queijo do reino que eu conheço.

-Pois é. Esse ninguém conhece. Onde arranjou?

-Com o Guaíba, aquele que é amigo do Batoré.

-Só podia ser… Olhe, dessa sua turma eu só gosto mesmo daquele seu coleguinha, doutor do dedão, que fez o novembro azul em você.

–Esse é o pior de todos vó. Compra e não paga. A não ser quando a sogra libera o cartão.

– É mais eu estou parada naquele dedo… Da próxima vez que for pra ele me leve.

Que foi que eu fiz pra ter uma vó tão depravada?

-Depravado é você e essa sua corja que vive querendo levar vantagem em tudo, com muamba sabe-se lá de onde… Até ovos esses seus amigos estão pirateando.

-Os ovos são do Pastor, um produtor famoso lá de Joaquim Gomes.

-É. Sem nota fiscal vende ovos, porco, papagaio, periquito e depois falam dos políticos. Quer saber, PT saudações.

-Vó meus amigos nunca lhe fizeram mal.

-Cada amigo lorde você tem. Batoré, Oio de Jeep, Fofa Chão, Beleboi, Monge, Gabiru, Manguito, Purê… Isso é qualidade de gente?

-Deixe para lá e fale do queijo?

-Acho que só quem vai comprar mesmo é o Monge que leva tudo sem reclamar.

-Estou falando sério, dona Nildinha…

-Um queijo sem marca, sem nome, quem foi  dessa elite que gostou?

-O Oio de Jeep.

-É aquele dos olhos grandes e aposentadoria recheada?

-Ele mesmo.

-Então, faça-lhe uma homenagem e batize de “Queijo Oião”…