Pequeno Polegar

Pequeno Polegar é um jovem jornalista que se acha “radical chic”, disposto a acompanhar nesse blog os fatos pitorescos do cotidiano, falando de personagens e de personalidades que costumam pisar na bola pelo meio mundo. Mas, com toda consideração.

Considerado ganhando uns trocados com muamba do Guaíba e o queijo “Oião”

13 de novembro de 2016 • 12:12 pm

O Natal está chegando e nessa época, invariavelmente, o queijo do reino é vendido em grande escala nos supermercados alagoanos. Mas, não só lá. O Considerado, por exemplo, costuma faturar uma grana extra, vendendo um queijo do reino a amigos. Consegue de um colega dele atravessador, mais conhecido como “Guaíba”.

Considerado vende queijo, uísque, bacalhau e até filé de Tilápia, que pega em consignação do atravessador. Bem relacionado, nosso amigo tem uma clientela seleta. Advogados, marajás da Assembleia Legislativa, delegados, magistrados, fazendeiros, médicos, procurador, executivo das telecomunicações, comerciantes e até genros famosos, que, muitas vezes, pagam com o cartão das sogras.

A clientela é boa por que o preço é bem abaixo do mercado. Como a humanidade gosta de levar vantagem em tudo, nenhum cliente dele procura saber a origem do produto. Pelo contrário, compram e recomendam atestando a qualidade da muamba.

Na semana que passou ele pegou com o “Guaíba” um lote de produtos e foi anunciar para a clientela. Final de ano, muita confraternização, brindes de lado a lado, um uísque vai sempre bem. Um queijinho então, nem se fala. No lote que recebeu veio um queijo do reino de marca diferente, um produto novo. Na sua carteira de cliente um marajá da Assembleia, conhecido como “Oio de Jeep” é um dos maiores consumidores do produto. Compra pra comer, presentear e até fazer farra com amigos, no bar do Lula, do Gabi ou no Grutinha.queijoreino

Sem saber ao certo como seria a receptividade do novo produto, ele deu uma lata (tipo Jong) para o marajá fazer uma degustação em sua roda de amigos. Entrega feita, produto provado. Curioso e aflito, Considerado quis saber o que a turma achou do queijo?

-E aí “Oio de Jeep”, o queijo é bom?

-Oio de Jeep é a minha “papa-vento”!

-Calma, amigo, eu só quero saber do queijo.

-Tudo bem, mas me respeite! E pode vender essa muamba…

Como não ficou convencido, levou outra lata para a casa da avó. Dona Nildinha estranhou o queijo de rótulo estranho. Mas resolveu provar para ajudar o neto ganhar os trocados de fim de ano.

-Afinal meu neto que queijo é esse?

-Queijo do reino…

-E de onde vem?

-Deve ser de Minas, como todo queijo do reino que eu conheço.

-Pois é. Esse ninguém conhece. Onde arranjou?

-Com o Guaíba, aquele que é amigo do Batoré.

-Só podia ser… Olhe, dessa sua turma eu só gosto mesmo daquele seu coleguinha, doutor do dedão, que fez o novembro azul em você.

–Esse é o pior de todos vó. Compra e não paga. A não ser quando a sogra libera o cartão.

– É mais eu estou parada naquele dedo… Da próxima vez que for pra ele me leve.

Que foi que eu fiz pra ter uma vó tão depravada?

-Depravado é você e essa sua corja que vive querendo levar vantagem em tudo, com muamba sabe-se lá de onde… Até ovos esses seus amigos estão pirateando.

-Os ovos são do Pastor, um produtor famoso lá de Joaquim Gomes.

-É. Sem nota fiscal vende ovos, porco, papagaio, periquito e depois falam dos políticos. Quer saber, PT saudações.

-Vó meus amigos nunca lhe fizeram mal.

-Cada amigo lorde você tem. Batoré, Oio de Jeep, Fofa Chão, Beleboi, Monge, Gabiru, Manguito, Purê… Isso é qualidade de gente?

-Deixe para lá e fale do queijo?

-Acho que só quem vai comprar mesmo é o Monge que leva tudo sem reclamar.

-Estou falando sério, dona Nildinha…

-Um queijo sem marca, sem nome, quem foi  dessa elite que gostou?

-O Oio de Jeep.

-É aquele dos olhos grandes e aposentadoria recheada?

-Ele mesmo.

-Então, faça-lhe uma homenagem e batize de “Queijo Oião”…


Considerado é expulso de campanha e vai comer orelha de porco no Gabi

16 de setembro de 2016 • 10:13 am

Começa a campanha eleitoral e, meses antes dela, o Considerado se mandou para uma cidade do interior alagoano para ajudar um amigo se eleger prefeito. Conversador, cheio de jinga, no mais puro estilo malando é malandro mesmo, logo alugou uma casa na cidade e começou a fazer a propaganda do candidato.

Dizendo-se conhecedor da política como poucos e se vangloriando de ser “amigo” de um monte autoridades políticas do Estado, ele passou a imagem na cidade de que era o cara certo no lugar certo. O candidato dele era boa praça, bem relacionado entre o povão, mas rejeitado na elite do lugar por uma razão muito peculiar: era liso batendo. Não tinha um tostão furado.

O cara era de meia idade e chegou ao Considerado graças à dona Nildinha que, em uma de suas idas ao Bougainville, em Maceió, andou ficando com o candidato, antes mesmo de ele decidir disputar a eleição. O nome do homem, Petrúcio. Mas, a avó do Considerado passou a chamá-lo languidamente de “Peuzinho”.

-Peuzinho, amor, você é mesmo candidato lá em Maravilha?

– Sou Nildinha, mas ainda me falta apoio.

-Que tipo de apoio, querido?

-Apoio financeiro, grupo político para dar suporte.

-Quem sabe meu neto, Considerado, não pode ajudar?

Dia seguinte a velha reuniu os dois e “Peuzinho” se entusiasmou com a conversa do neto de Nildinha. “Deixe tudo comigo e vá pedir votos”, disse. Falou que era amigo de todos os senadores e dos deputados federais do Estado e que esse povo ia ajudar. Conseguiu até marcar uma reunião com um dos parlamentares alagoanos que viu potencial no candidato e prometeu o céu e a terra na campanha.

Considerado passou a morar em Maravilha. Logo tratou de fazer o lançamento da campanha. Comprou fiado em tudo que é lugar, em nome do candidato e do parlamentar renomado que iria ajudar a campanha. Fez duas festas. Uma na cidade e outra na zona rural. As duas regadas a muita cerveja, devido o calor do sertão. Na zona rural a festa foi na fazenda do Geno, um pistoleiro de lá, que um dia foi atacante reserva do CSE de Palmeira dos Índios.

Uma semana depois os credores passaram a procurá-lo para receber o dinheiro das duas festas.

-Seu Considerado, cadê o dinheiro do carneiro que lhe vendi?

-Não é comigo não; é com o candidato.

-Ele disse que é com você.

-Eu estou esperando o deputado pagar.

-Eu não fiz negócio com deputado não, cabra. Pague logo.

As cobranças foram se avolumando. Até que Geno procura o candidato e avisa pra ele resolver o problema. -Olha Petrúcio, isso vai sobrar para você. Esse cara tá enrolando o povo em seu nome. – Alertou.  –E o que ele está dizendo? –Que aquele deputado vai mandar um tal de Batoré aqui para pagar a todo mundo e isso já tem 15 dias. Nem o aluguel da casa de Mariinha ele pagou.

E lá se foi “Peuzinho” conversar com Considerado.

-Rapaz pelo amor de Deus, quem vai pagar isso?

-Que nada, Peu, quando a gente ganhar paga… Vai ter muito dinheiro

-Você está louco. E o dinheiro do deputado?

-O Batoré disse que o banco está em greve e por isso ainda não veio.

-Olhe quer saber de uma coisa desapareça daqui. E vá você, o Batoré e o deputado a puta que pariu.braised pig ear

– Mas Peu…

-Mas Peu, porra nenhuma. Suma daqui ou eu mando o Geno lhe dar uma surra.

Enfim, a fase de Considerado coordenador de campanha termina. Ele chega à casa da vó cabisbaixo e diz pra ela que o candidato era fraco. E por isso abandonou a campanha. Para animar o “netinho” avó o convida para comer uma orelha de porco no bar do Gabi, nas proximidades do Aldebaran.

-Vó não gosto dali não. Tem uma turma lá meio elitista…

–Que nada menino deixa de besteira. O dono de lá é um gatinho

-Meu Deus, vó aquilo está mais pra porco espinho.

A velha querendo paquerar o dono do boteco foi comer a orelha de porco. O cara servia e ela se enxeria. Comeram, beberam e veio a conta. –Quanto foi amor? – Pergunta Nildinha ao Gabi. E ele feito casca de jaca: – Sei não, veja aí.

Considerado pega a nota e protesta:

-Meu Deus, isso é um assalto!

-O que foi meu filho?

-Esse cabra está cobrando R$ 59,00 só de arroz.

-Meu filho pague logo, você não ganhou dinheiro lá em Maravilha?

-Que dinheiro se aquele candidato, o namorado que você arranjou, era um pé rapado…

-Meu neto quando é que você vai se endireitar na vida?

-Quando a senhora parar de ser a velha mais galinha desta terra.

-Vamos embora, vamos embora por que aquele “Fofa Chão” daquela mesa em frente está olhando pra mim…


Pra não perder a rima, Zabumba no lugar do Dunga na seleção do Considerado

13 de junho de 2016 • 10:25 am

Considerado amanheceu esta segunda-feira numa revolta só. De tão exasperado parecia que estava vendo o mundo se acabar e não era nada disso. Ele entra  feito um  foguete na redação para falar de futebol. Melhor dizendo, para falar do Dunga.

Desceu a malha e largou o pau. Fiquei a ouvir, mas de certa forma até contente por que nunca vi Dunga como técnico qualificado e nem fui admirador do futebol brucutu que ele jogava. Ademais, faz tempo que não assisto a um jogo sequer da seleção brasileira. Vi dois jogos ainda na copa do mundo e um deles foi aquele fatídico 7 a 1 para a Alemanha. De  lá pra cá, nada mais.

Assim quis saber do Considerado por que estava tão revoltado? – E você não viu não mais um  vexame do Dunga. – Não perco meu tempo. dunga

Ele silenciou por uns instantes e concordou que eu tinha razão. Mas voltou a falar dizendo que Dunga nunca deveria ter entrado e que a CBF era um covil de ladrões. Essas coisas que torcedor diz, muitas vezes com razão e outras nem tanto. Mas em se tratando de CBF, o que se pode dizer é que é uma entidade que chafurda na lama faz tempo.

-Considerado qual a solução agora?

-Não sei. Só lhe digo que para as Olimpíadas se for assim vai ser outra palhaçada.

Impossível não concordar com o nosso comentarista abalizado, agora preocupado com as Olimpíadas, segundo ele, sem técnico e nem time de qualidade. Resolvi insistir qual a solução brilhante que ele teria para resolver o problema.

-Só sei que se for com esse time a gente perde de novo dentro de casa.

-Esse time não pode ser Considerado por que há um limite de idade.

-Besteira isso. Era bom que mudassem as regras que eu teria um time pronto.

-Êpa! E qual seria?

-Os bons de Copo Futebol Clube do Bar do Gabi.

– Está de sacanagem, cara, eu pensando que você falava sério…

– É isso mesmo. Esses caras jogam mais do que o time do Dunga.

– Vou deixar você com seu lendário time e vou trabalhar.

-Eespere aí que vou lhe mostrar.

Tentei voltar ao meu computador mas ele mostrou uma foto de um cara peludo, mais parecido com um lobisomem e me disse que foi o maior jogador de futebol de salão do Estado.

-E quem é esse cara?

-Lobisomem, centro avante do meu time.

-Deixa de galhofa…

-E tem mais veja a escalação:

-Fale logo que eu preciso voltar a trabalhar:

– Monge no gol. Na defesa: Sargento Garcia, Beleboi, Coleguinha e Gabiru…

-Minha nossa senhora…

-No meio de campo: Fofa Chão, Pastor cifrão e Oio de Jeep

-Eu mereço isso Considerado…

-No ataque: Purê, Lobisomem e Batoré.

-E pra o lugar do Dunga?

-O Zabumba do Grutinha.

-Satisfeito com sua história ridícula?

-Um time como esse merece um grande bicho.

-Só se for sua vó Nildinha, massageando eles todinhos


Para ganhar uns trocados Considerado vai ao buraco do Tatu e grita pela polícia

5 de junho de 2016 • 11:45 am

 

Liso feito sabonete, sem um centavo no bolso, Considerado foi convidado por um amigo para participar da produção de um filme publicitário de uma gestão municipal. Por ser um cara desenrolado, enxergaram nele um sujeito com essa capacidade de produzir a arte.

E lá se foi nosso amigo com uma visão diferente de suas tarefas. Por ser um cidadão desenvolto logo queria assumir o papel de protagonista do filme. Já se imaginava como ator em papel de destaque, tipo aqueles guardas pretorianos, de chicote nas mãos, açoitando os hebreus, tal como no filme “Os 10 Mandamentos”.

Logo caiu na real, pois as tarefas que lhe deram foram todas por trás das câmeras e, principalmente, quando elas estavam em off. Assim, trabalhou como faz tudo. Carregou vara com microfone, plantou palmeira, arrastou pedra, até imitou berro de ovelha e uivo de lobo.

No fim da história estava um caco. Mas saiu do set de filmagens animado, pois sabia que tinha cumprido sua missão e agora era só receber o dinheiro acordado.  Mandaram-lhe ir a uma empresa onde três sócios atuam a todo vapor na parte financeira.  Chegando à sede se dirigiu até a moça da recepção e perguntou:

– Onde tem pagamento?

-Que pagamento?

-Da filmagem que fiz.

-E que filmagem foi essa?

-Uma filmagem da Prefeitura.

-E como é seu nome?

-Considerado.

-Considerado? Que nome estranho…

-Moça quero saber do meu dinheiro, logo.

A recepcionista o olhou de cima a baixo e percebeu que ele já estava botando cara de poucos amigos. Tratou então de consultar os “universitários” por meio do telefone. Ligou para vários ramais e em seguida informou:

-Seu dinheiro é com Dr. Brahão.

-E onde encontro esse tal Brahão?

– Sente naquele banco no fim do corredor que ele passa já.

Ele ficou feliz por que durante as filmagens um diretor de cena, graças a imensa barba branca que tinha, foi logo batizado de Abraão. E o Considerado fez amizade com o sujeito. Pensou até que seria o mesmo. “Tou de boa”. Imaginou.

Só que o tempo foi passando, ele esperando e nada do trem pagador passar. Estranhou por que pelo corredor passava sempre um gordinho bem mais velho que ele, telefone no ouvido e um cigarro na boca. O cara fumava feito “preto véio” em despacho de macumba.

Chateado com mais de 1 hora e meia de espera decidiu perguntar:

-Ei moço, viu o seu Brahão por aqui? O caipora olhou desconfiado, mas respondeu: – O que você quer?

-Eu quero o meu dinheiro do filme.

-Isso não é comigo não, procure o Janjão.

-Eh, começou a fuleiragem… Que Janjão?

-O Teiú. Tá lá no fim do prédio.

Meio puto, Considerado saiu à caça do tal Teiú. Achou engraçado por que no local de longo corredor havia umas salas que mais pareciam buracos para esconder coisas. E ficou a pensar. Onde tem buraco tem até Tatu, quanto mais Teiú…

Foi quando encontrou um funcionário e perguntou:

-Onde encontro o Teiú?

-Tá com o Tatu na última sala.

-Oxe, Teiú com Tatu? Bem que eu desconfiava que isso era uma fauna.

Na porta da sala um segurança da largura de um guarda roupa barrou a entrada dele. – Onde você pensa que vai? –Vou entrar nesse buraco pra caçar Tatu e Teiú que Brahão mandou.

-Volte outra hora que eles estão muito ocupados com as lideranças dos bairros…

– Mas e o meu dinheiro?

-Não é comigo. E aqui só entra quem foi chamado.

-Daqui não saio. Quero meu dinheiro…

-Isso não é comigo.

De repente, da sala saiu uma conhecida liderança de bairro da cidade e ele chama o cara:

Ei Dedeu, o que você estava fazendo aí no buraco do Tatu e do Teiú?

-Eu venho aqui todo fim de mês resolver umas coisas…

-Sei e tem muita gente lá?

-Fim de mês é sempre cheio.

-Entendi. Eu vou chamar é a polícia pra investigar esse buraco.

-Tenha calma, eles vão lhe atender…

-Vou gritar agora…

-Faça isso não!

-Polícia! Polícia! Tem coisa aqui no buraco do Tatu.
tatu

 


Doquinha, a paixão fugaz da avó do Considerado. Pense numa velha…

26 de Maio de 2016 • 7:55 am

Considerado estava em depressão. Ele, avó, a mãe, enfim a família inteira deprimida. A causa foi a morte de um amigo deles. Doquinha. O Dário Aguiar, filho de seu Graça, lá de Bebedouro. Um homem de bem. Tinha o perfil conservador, de valores tradicionalíssimos. Nessa cacaterística, nada a ver com nosso amigo. Mas acabaram se gostando.

Acontece que o Considerado gostava do velho Doquinha pelas histórias de valentia que ele contava dos seus tempos de juventude. Fora amigo de uma série de “famosos do gatilho” desta terra.

Na reta final da vida, os amigos passaram a ser os famosos de copo, conhecidos por Fofa Chão, Pastor Sifrão, Gabiru, Batoré, Manguito, Zoião, Coleguinha, Sargento Garcia, Puré, Monge Wladir, Língua Colada, Biu Bezerros, Beleboi e Magistrado Baden-Baden.

Doquinha tinha um “cumpadre quelido” que o apresentou a dona Nildinha, avó do Considerado. A velha, que gosta do sassarico, logo arrastou as asas para cima dele. Elogiava o chapéu de cowboy e o bigode ruivo. Não deu outra. A paixão foi arrebatadora.

Só que o compadre sempe avisava: – Olhe não dê trela pra essa velha que ela é o cão. Conheço uns quatro que não aguentaram o ritmo dela.

-Deixe comigo. – Foi a resposta do novo “latim lover” de Nildinha.

Segundo o compadre, o romance intenso foi fugaz. Durou seis meses. Até o dia em que ela resolveu acompanhar o neto ao médico. Considerado com uma crise hemorróidas foi a um especialista indicado por Doquinha. O doutor Coleguinha era uma espécie de amigo irmão dele. No consultório, a velha não perdeu tempo depois de se encantar pelo homem de jaleco branco. Conhecendo a avó e com pena do velho amigo, o rapaz chamou a atenção:

-Vó pare com isso, a senhora não tem mais idade para se insinuar desse jeito.

-Não estou fazendo nada. E idade para quê?

-Mesmo sem idade, a senhora também tem um namorado. Respeite ele.

-Tem mais nada a ver. O Doquinha agora só quer namorar o copo.

-Então acabe, mas não fique de presepada.

-Não estou de presepada. Eu soube que ele se encantou pela irmã do meio de um tal de Monge.

-Seria bom, por que a senhora não é nenhuma santa mesmo.

-Só por que eu dei uma olhadas pra esse médico bonitão?

-Por que a senhora já é velha e o Doquinha não merece.

-Velha é tua mãe que não arranja ninguém.

-A senhora parece uma adolescente ninfomaníaca.

-Meu filho eu estou viva e um médico com um dedo deste tamanho é meu sonho…

-Coitado do Doquinha vai entrar na “gaia”…

-Quem sabe, se o Coleguinha dele quiser…

-Desse jeito vó, só tinha um cara pra lhe acertar.

-Quem é?

-Zoião Papavento. Aí a senhora ia ver o que é bom pra tosse.

-Manda ele pra mim meu filho…

 

(P.S. – Que o Doquinha esteja em paz onde estiver. Era uma grande figura)

 

 

 

 

 

 

 


Considerado, os pardais e as gaiolas de dona Nildinha

6 de Março de 2016 • 12:02 pm

Como sempre acontece aos domingos, Considerado foi tomar o café da manhã com dona Nildinha, avó dele. A velha costuma caprichar e fazer os mimos do único neto que tem. Eles são muitos ligados. Família pequena, o melhor caminho para viver em harmonia é manter a unidade afetiva.

Chegou à casa dela e se surpreendeu ao olhar à mesa e esta não estava posta. Nada para comer, nem beber. Será que está doente? Foi o que pensou e passou a chamá-la, visitando os três quartos da casa. Preocupado seguiu em direção ao quintal e sua surpresa tornou-se ainda maior. Estava lá, sentada em uma pedra, com um pacote de milho quebrado nas mãos e uma arapuca armada para pegar passarinho.

-O que é isso vó? Ele questionou incrédulo e ela retrucou na hora: – Silêncio menino!

Foi o que fez. Ficou mudo e imóvel, assistindo ela jogar farelos de milho debaixo da arapuca e cantando como quem chama ninhada de galinha: ti ti ti ti ti…

Considerado teve que interromper a cena ao ver ao lado, no canto do muro, mais de 10 gaiolas de criar passarinho. “Essa velha está louca”, voltou a pensar. Logo interrompeu a cena e questionou já meio abusado: – O que está acontecendo aqui minha vó, a senhora está bem? Nildinha fez sinal de positivo e ele insistiu para que a situação fosse esclarecida, pois não estava entendendo absolutamente nada.

– Diga-me vó, por que essas gaiolas, essa arapuca, se a senhora nunca criou passarinho?

-Eu estou aqui para defender a natureza?

-Como se defende a natureza, prendendo passarinho em gaiolas?

– Se eu não prender vão acabar com eles?

Pardal

Pardal

– Que conversa minha vó…

-É sim. A imprensa está dizendo aí que querem acabar com os pardais…

– Pelo amor de Deus vó, não tem nada ver com esses passarinhos não.

-Mais eu ouvi falar no rádio que querem acabar com os pardais e eu sou contra.

– Os pardais que falaram não são esses passarinhos. São equipamentos eletrônicos de uma certa máfia da indústria da multa.

– E é? A vizinha que só anda de shortinho me falou dos pardais, mas não falou dessa indústria não. Então me fale o que é isso.

Ele ajudou a vó a levantar-se e depois foi desarmar a arapuca que já estava rodeada de um bando de pardais, felizes com a comida farta. Mas, impaciente, ela pediu explicações ao neto sobre o que estava acontecendo.

– O problema vó é que o prefeito de Maceió colocou nas ruas esses equipamentos eletrônicos chamados pardais, que registram infrações dos motoristas no trânsito e os infratores são multados.

– E isso não é bom?

– Em tese é. Mas a questão é que as pessoas estão dizendo que ele colocou esses pardais para atender a indústria da multa e arrecadar dinheiro para as eleições.

– E é? Então tem safadeza no meio?

– Não sei. Não posso afirmar isso. Agora esse é um ano de eleições, os vereadores querem dinheiro para campanha, o prefeito também, os cabos eleitorais também…

– Estou entendendo. É multa pra um, multa pra outro e o dinheiro entrando.

– É o que dizem…

– E agora eu que fico no prejuízo, Considerado?

-Como assim?

– E quem vai pagar minhas gaiolas?

– No prejuízo estou eu dona Nildinha, cadê o meu café?

– Vá comer na vizinha, a quartuda que você gosta…Mas, se preferir, vá na Rotary comer com seu amigo Batoré.


Avó do Considerado, a sem noção e a estátua do Graciliano. Essa velha…

13 de Fevereiro de 2016 • 8:06 am

Considerado acordou cedo fez tudo que a natureza pede após o despertar do corpo e da alma e se drigiu ao café da manhã na casa da avó, dona Nildinha. Coisa de menino criado com vó, dizem os amigos dele, mas nesse caso o cara não liga a mínima. E, cá pra nós, tem razão em não dar ouvidos a chacotas dos parceiros. Faz parte.

Mas, no café encontrou a velha pensativa diante de um notebook, seguindo páginas e páginas do facebook. Mal teve tempo de abençoar o neto, que lhe beijou a testa e deu bom dia. Nildinha não é muito de ficar quieta e isso foi o que causou estranheza naquele momento.

Devidamente incomodado, Considerado perguntou o que estava acontecendo ou o que havia de tão importante no facebook que a avó mal lhe notara em casa. Logo ela que gosta de tagarelar, falar mal dos outros, contar os casos que teve com policiais e que agora anda apaixonadíssima pelo secretário de segurança. “Esse é dos meus”! Costuma dizer.

Lá nos idos de 50, ela era mais conhecida como “Maria Batalhão”.

Em meio ao silêncio dela, o neto enfim pergunta o que está havendo, se está doente ou que mal existe?

Ela responde que não há nada consigo, mas que viu uma coisa na internet que a deixou pensativa sem uma opinião concreta em torno do assunto.

-E o que foi vó?

-Essa moça que subiu nas costas da estátua.

-E o que tem ela demais?

-Não sei meu filho, mas isso nessa época de carnaval…

-E o que o carnaval tem com isso minha avó?

-É que nessa época a gente gosta de subir em tudo, menos numa estátua.

-Não estou entendendo essa conversa.

– Olhe eu já montei em tronco de Mulungu, lombo de jegue, nas costas do sargento Militão e subiria até nos ombros do Gaspar, mas numa estátua, que tesão há nisso?

-Tenha jeito dona Nildinha!

-Meu filho tem gosto pra tudo…

-Acho que não foi uma questão de gosto, mas um ato impensado.

-Impensado e bota logo no facebook?

-Mais impensado ainda. Deixa pra lá, é melhor eu lhe contar meu sonho…

A velha então olhou pra ele e até pensou e deixar a história de lado e ouvir  sobre o sonho do Considerado que já não estava mais gostando daquela conversa. Mas, Nildinha não quis saber e retomou a história:

-Não sei não… E sobe na estátua do Graciliano, se fosse pelo menos do Brad Pitt.

-Graciliano é um ícone da nossa cultura…

-E o que você entende de cultura Considerado?

-Vó é melhor a gente acabar essa conversa e deixar essa moça pra lá. Ela já pediu desculpas!

-Nao sei por que você defende tanto ela.

-Isso não tem nada a ver

-Já sei.

-Sabe o quê?

-Na verdade, você que não namorou ninguém no carnaval, deve ter sonhado com ela subindo em suas costas.

-Eita vó, aí ela ia se estrompar todinha.

ela na orla

 


Considerado, a Melina e o MOVA sem protesto. Tem jeito?

16 de Janeiro de 2016 • 8:26 am

O Considerado amanheceu hoje pra lá de arretado da vida. Apareceu dizendo que ia se queixar no MOVA. Como não sabia exatamente do que se tratava quis saber do que ele estava falando e me disse que era o Movimento Cultural Alagoano.

E aí foi que fiquei sem entender coisa alguma mesmo. O Considerado indo se queixar de alguma coisa no MOVA era uma situação pra lá de inusitada.

Sendo assim tratei de saber mais sobre essa história para poder entender a real situação. Ele me disse que esse movimento questiona o que está errado na cultura alagoana. Disse que a entidade promoveu o maior barulho contra a indicação da Secretária Estadual de Cultura, Melina Freitas, e por isso ele ia lá fazer uma denúncia.

Danou-se, pensei cá com o meus botões. Principalmente por que nunca vi o Considerado envolvido com qualquer que fosse o movimento cultural na cidade.

Portanto, é preciso tirar essa história a limpo. – Diga aí amigo, o que você tem a ver com a cultura alagoana que resolveu fazer uma denúncia?

Olhou-me com uma cara de revolta e tirou onda dizendo que todo e qualquer povo tem a ver com cultura. No caso dele, a cultura popular. Gosta de dançar coco e se esbaldar no carnaval.

A história é a seguinte. O cara fez uma fantasia de Pirata para sair no bloco “Caçoa mas num manga”, nas prévias carnavalescas de Maceió.

Só que, de repente, veio a informação de que o prefeito Rui Palmeira preferiu fazer o “Maceió Verão”, do que ajudar o blocos do Jaraguá Folia, o Pinto da Madrugada e outros.

Ele então ficou com os nervos em frangalhos e queria uma posição do MOVA, enquanto entidade de defesa cultural.

-E o que você quer de fato, Considerado?

-Quero que o MOVA faça um protesto contra o prefeito de Maceió.

-Mas o prefeito tem o livre arbítrio de trocar o Jaragá Folia e o Pinto da Madrugada pelo Maceió Verão.

-É. E a Melina não tem direito de ser Secretária de Cultura não?

-E o que a secretária tem a ver com isso?

-O MOVA botou pra quebrar em cima dela, constrangeu o governador por causa dela e nem quis saber se a criatura ia trabalhar direito ou não?

-É o direito que cada um tem de protestar Considerado…

-Sim e cadê o protesto contra o cara que negou apoio as prévias carnavalescas de Jaraguá, com seus afoxés e blocos que arrastam mais de 200 mil pessoas na cidade?

-Você tem que entender que o prefeito disse que a Prefeitura está em crise.

-É? Mas está gastando muito mais de R$ 1 milhão para fazer shows na praça Multieventos só pra elite, com camarote e tudo.

-Quer dizer que o MOVA não se moveu…

– Deve ser por causa do aumento da passagem de ônibus. Ah se fosse a Melina…

 


A resposta da sogra do Considerado depois do Aconcágua. Paguei o pato

8 de Janeiro de 2016 • 8:40 am

Não vejo a hora de encontrar o Considerado pela frente. Talvez tenha que rever esse nível de camaradagem com ele. O cara acostumado a aprontar a todo tempo – umas tantas vezes sem noção e outras por peraltice – e o pato agora sobra pra mim, um simples escrivinhador, como diz “o Coleguinha” (amigo do Considerado).

Contei aqui “a manha” que ele fez para a sogra levá-lo em uma viagem internacional. Acontece que e a nobre senhora leu o escrito e não gostou e tem suas razões. Por isso, peço-lhe a devida vênia. Dona Julita até confirmou que se livrou do Aconcágua por que tem um santo forte. Mas, quem ficou mal na fita fui eu. Esse pato eu tributo na conta do Considerado e não há suíno nenhum, nem temperado, que pague. E tudo por um “mero” detalhe. Veja abaixo a íntegra da carta de dona Julita para o blog do Pequeno Polegar.

 

  • Prezado senhor

Pequeno Polegar (desculpe, foi este o nome que ouvi do Considerado)

Chegou a meu conhecimento uma advertência sua sobre os propósitos funesto do Considerado a integridade física de minha pessoa, desde já agradeço  pela boa vontade de me fazer conhecedora  do  famigerado intuito.  No entanto graças a  minha intuição e ajuda dos meus Santos protetores o tal plano gorou, pois no dia da ida ao Aconcágua , num estalo de momentânea lucidez  resolvi não ir,acredite ,o Considerado ainda instou  muito para que eu fosse conhecer  a maior montanha das Américas, mas, como já disse antes, o meu Santo é forte( nem diga isso ao Coleguinha, pois vai me achar uma incauta por acreditar no imponderável, e no que não esta cientificamente comprovado ),

Achei o pseudônimo, ou como se diz hoje, codinome Julita agradável, pois me levou as lembranças da infância, de uma prima contadora de histórias de fantasmas e  assombrações, uma portuguesa de bigodes, — mas doce que doce de jaca,—   feito por minha avó. Quanto ao apodo de “veia” quero dizer educadamente e não se ofenda “veia” è alguém muito mais próximo do senhor.

Espero que o ano de 2016 seja de alegrias e realizações para o senhor e toda família  , um abraço cordial

                        Julita     

Ps: tudo é pura brincadeira o Considerado jamais faria qualquer coisa contra mim, tenho certeza,

                                                                     

 

 


Sogra paga viagem de Considerado para o Monte Aconcágua. Que confusão!

30 de dezembro de 2015 • 4:11 pm
Cume do Aconcágua

Cume do Aconcágua

A mãe da namorada de nosso amigo Considerado chamou  filha para viajarem juntas. Dona Julita, a matriarca, pagou um pacote para romper o Ano Novo entre a Argentina e o Chile.

O pacote inclui brinde com uma Veuve Clicquot no pico do monte Aconcágua, considerada a montanha mais alta das Américas, localizado na região Mendoza, nos Andes argentinos.

A jovem animada com o presente da mãe logo contou para o namorado que iria passar o réveillon muito longe de casa. Ele, com a cara de espanto, se insinuou:

– E eu não vou não é?

– Mainha não falou nada sobre você.

-Então se vire e diga para me incluir no pacote, afinal no Natal eu dei a ela um leitão, suíno saudável, de presente.

E lá se foi Manoela, a namorada, convencer a mãe a convidar o genro para ir na base do “zero oitocentos” a uma viagem internacional. A vela ficou possessa com a cara de pau do sujeito e ameaçou a desistir da programação. A confusão foi feia.

– Ele pensa que por causa de um suíno de qualidade mediana eu devo alguma coisa a ele?

– Não se trata de suíno, mamãe. Custa nada à senhora convidar o seu genro?

– Tem certas qualidades de genro que é melhor não ter.

-Não senhora, ele é um bom rapaz e eu gosto dele.

Enfim, Manoela bateu o pé firme no chão e disse à mãe que só iria com o namorado. A velha então cedeu e adicionou o Considerado no pacote. Pagou o triplo, mesmo revoltada.

Estão lá em Mendoza. Considerado só fazendo selfie e disparando as fotos para os grupos de whatsapp dos amigos. Em cada foto, uma legenda, tipo: “Domei a velha”!

Em uma das fotos enviadas, fez uma ameaça velada: – Se eu me abusar deixo essa velha no monte Aconcágua e vou pra Santiago com Manu.

Para o azar dele, dona Julita descobriu as mensagens enviadas e foi tomar satisfações.

– Como é essa história que você vai me deixar no Aconcágua e sumir com a minha filha?

– Foi brincadeira dona Julita?

-Isso é brincadeira que se tire com uma senhora de respeito e que está aqui pagando as suas contas?

-Também, a senhora quer transformar a minha vida num inferno.

-Inferno é ter você por perto gastando o meu dinheiro… Bebendo champanhe francês…

– Como é a história dona Julita?

– É isso mesmo.

-Mas, quando foi pra receber meu suíno de presente a senhora se derreteu toda…

-Se derreteu o quê, me respeite.

E ainda pediu outro pra presentear o padrasto do Batoré.

-Que Batoré? Aquele seu comparsa do Opala azul?

-Ele mesmo.

-Então quer saber, pegue seu suíno e bote no…

-Êpa! Cabe não sogrinha…