15 de Abril de 2017 • 10:35 am

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Delator da Odebrecht narra uma negociação de propina para Téo Vilela

Em vídeo ele fala de reuniões com o ex-governador, Marcos Fireman, Elias e Fernando Nunes

Por: Da Redação
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O mundo tucano em Alagoas desabou na sexta-feira, 14, a partir de uma delação premiada do executivo Alexandre Biselli, da Odebrecht, que narra em riqueza de detalhes uma negociação de propina de mais de R$ 2 milhões com o ex-governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), o irmão Elias Vilela, o ex-secretário de Infraestrutura, Marcos Fireman, e subsecretário, Fernando Nunes.

Os detalhes da negociação foram revelados em reportagem do Estadão, assinada pelos jornalistas Julia Affonso, Ricardo Brandt, Breno Pires e Fábio Serapião.

O delator da Odebrecht conta sobre duas reuniões organizadas no hotel Radisson com as participações de todos os citados. A negociação envolvia percentuais de propina das obras do Canal do Sertão. Em nota ao jornal, Vilela negou tudo.

Eis a íntegra da matéria do Estadão:

-As obras milionárias do Canal do Sertão, no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Alagoas, foram objeto de negociação de propina em um hotel à beira-mar de Maceió, em 2014. O executivo Alexandre Biselli, um dos delatores da Odebrecht na Operação Lava Jato, narrou ao Ministério Público Federal uma reunião, sob clima ‘caloroso’, em que houve o acerto de propina para gastos da campanha de 2010 do então governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (2007-2014 pelo PSDB), o ‘Bobão’.

O Canal do Sertão, quando concluído, terá 250 quilômetros de extensão e levará água para cerca de 1 milhão de pessoas em 42 municípios de Alagoas. O investimento total na obra é de R$ 1,5 bilhão, segundo o site do PAC.

Biselli contou sobre três pagamentos no Sistema Drousys, a rede de comunicação interna, uma espécie de intranet, dos funcionários do ‘departamento da propina’ da Odebrecht, e três pagamentos apreendidos na 26.ª fase da Operação Lava Jato, totalizando R$ 2,814 milhões.

O delator descreveu os pagamentos: R$ 1 milhão em 9 de junho de 2014; R$ 906 mil em 15 de setembro de 2014; R$ 238 mil em 13 de outubro de 2014; R$ 150 mil em 19 de novembro de 2014; R$ 350 mil em 20 de novembro de 2014; e, R$ 170 mil em 21 de novembro de 2014.

Os valores, segundo Biselli, eram pagos em espécie e ‘nunca recebeu reclamação de não recebimento’. Ele identificou três apelidos: ‘Bobão’ (governador Teotônio Vilela: R$ 1 milhão, R$906 mil e R$ 150 mil), ‘Faisão’ (Fernando Nunes: R$ 238 mil e R$ 170 mil) e ‘Fantasma’ (Marco Fireman: R$ 350 mil).

Acerto. Alexandre Biselli detalhou à Lava Jato todo o processo de acerto da propina. O início das ‘tratativas’, declarou, se deu entre janeiro e fevereiro de 2014 pelo então secretário da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) de Alagoas, Marco Antônio Fireman.

“Fui até essa reunião, ele conversou comigo sobre obras e depois me passou um assessor dele, o sr. Fernando Nunes”, contou. “Nessa ocasião, o sr. Fernando Nunes perguntou para mim que teria um acerto datado da época de concorrência dessa obra, em 2009, eu ainda não estava na Odebrecht, de 5% sobre o valor do contrato para poder fazer parte das tratativas de campanha para o sr governador Teotônio Vilela Filho em 2010.”

Biselli era diretor de contrato das obras do canal do Sertão. João Pacífico, diretor Superintende do Nordeste e de algumas obras/estado do Centroeste.

“Eu fui lá para a reunião e aí seo Marco Fireman em determinado momento pediu para eu conversar com o seo Fernando na sala ao lado. Foi quando o seo Fernando fez a abordagem se eu sabia desse assunto, que teria um compromisso de 5% para a campanha do então governador Teotônio Vilela. Eu disse que não sabia. Eu procurei meu líder João Pacífico, que disse que desconhecia esse compromisso, que eu poderia retornar com esse assunto com o seo Fernando ou com o secretário.”

Dois meses após esse encontro, afirmou o delator, o escritório de João Pacífico ‘recebeu uma ligação do governo do Estado, marcando uma reunião em Maceió para falar de assuntos relativos à obra’. O encontro se deu no hotel Radisson, em Maceió no hotel à beira-mar.

“A gente estranhou que a reunião era em um hotel não era no Palácio do Governo. Eu me informei lá, diz que era muito normal ele ter vários despachos em hotéis”, contou Biselli.

O delator afirmou que ele e João Pacífico entraram na sala de reunião, onde estavam ‘o sr governador Teotônio Vilela, o sr Marco Fireman e o sr Fernando Nunes’.

“Num dado momento dessa reunião, esse assessor, o sr Beto, interrompeu a reunião e disse ao governador que ele precisava sair para atender uma outra pessoa em outra sala. Nessa saída do governador, o sr Marco Antonio Fireman, instantes depois que ele saiu, abordou o sr João Pacífico dizendo que eu tinha retornado com um recado que não existia compromisso que eles estavam precisando muito de um dinheiro para a campanha. O sr João Pacífico disse que não tinha nenhum compromisso nesse sentido, que não podia dar nenhum dinheiro para obra”, disse.

“Em dado momento o sr Marco Fireman disse ao sr João Pacífico que seria melhor, então, que tirasse a obra da Odebrecht, que teria segundo colocado da concorrência, que seria a OAS.”

Biselli declarou que ‘ficou um clima um pouco desagradável’.

“Nisso o sr governador voltou. Quando ele voltou, já era não sei que horário. O sr João Pacífico falou: ‘olha, sr governador, a gente já veio aqui, já conversamos sobre os assuntos da obra. Se não tiver mais nada para falar a gente vai embora’. A gente se despediu de todos”, afirmou.

Segundo o delator, esta reunião durou em torno de uma hora. Teotônio Vilela, declarou, ficou ‘uns 20 minutos’ fora da reunião.

“Na minha percepção, uma saída combinada, uma saída meio teatral. Ele sai em determinado momento para as pessoas falarem do assunto sem ele estar presente. Por que eu corroboro com essa ideia? Por que mais ou menos depois de 2 meses, o Palácio do Governo fez outra ligação para o escritório do sr João Pacífico marcando uma nova reunião. Nessa nova reunião, como era de obras, sr João Pacífico também me chamou. Foi no mesmo local”, disse.

O novo encontro também ocorreu no hotel Radisson.

Alexandre Biselli disse que Elias Vilela, irmão do governador, estava na reunião. Após o governador sair novamente da reunião, disse que havia dívidas ainda pendentes e ele precisava dos valores da Odebrecht para resolver a pendência.

Desta vez, segundo o delator, a propina foi acertada. De acordo com o delator, João Pacífico, após as conversações com Elias Vilela, aceitou pagar 2% dos valores da obra.

A conversa com Elias Vilela, narrou ‘começou num tom normal, mas às vezes ficou um pouco mais impositivo, ficou um pouco mais exaltado, porque queria que o compromisso fosse feito, queria a contrapartida, queria que desse alguma coisa’. “Ficou um clima um pouco mais caloroso, quente”, disse.

“Nessa vez não teve ameaça de retirar da obra como teve na primeira vez. Mas falou: ‘a obra vai ficar muito difícil, não ter um bom andamento, não vai ter recurso disponível.”

O executivo contou que foi convocado por Fernando Nunes na sede da Seinfra que pediu que a porcentagem de 2% fosse acrescida de 0,25%. João Pacífico autorizou o aumento.

Depois das tratativas, o empenho da obra ‘cresceu muito’ em 2014. De R$ 53 milhões em 2013, os empenhos foram para R$ 214 milhões em 2014. O acréscimo significativo foi depois da reunião, declarou.

O Ministério Público Federal questionou o executivo sobre a conclusão da obra. “Está andando de forma bem devagar por falta de empenho. Ela não teve nenhuma paralisação. Ela ainda está em execução. Começou mais devagar em 2015.”

COM A PALAVRA, TEOTÔNIO VILELA FILHO

O ex-governador Teotônio Vilela Filho reafirma que em sua vida pública nunca negociou favores ou autorizou quem quer que seja a negociá-los em seu nome. Diz também que as doações para suas campanhas eleitorais sempre ocorreram de forma legal e todas declaradas à Justiça Eleitoral.

Assessoria de Comunicação do ex-governador Teotônio Vilela Filho

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