19 de agosto de 2017 • 10:10 am

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Folhas dançarinas: a crônica do professor Pife, o Osvaldo

‘As folhas secas zumbiam como dançarinas em sua frente e pegavam em suas mãos’

Por: Da Redação
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Folhas dançarinas
Seus pés pisavam uma terra tórrida, descascada, quase nua, sem intervalos de areia macia. Não sentia a vida. O que amargava era o torpor daquele dia infame que ainda penetrava sua memória. Desolada, olhava o chão, não como um plano liso ou saliente sob seus calcanhares, mas como uma fenda infinda dos seus pensamentos. Nunca tinha ficado assim.
Naquela tarde, ela sabia que o mundo desabara sobre sua cabeça quando tomou uma decisão que iria mudar sua vida para sempre. Não era arrependimento, mas a certeza da melancolia dali para frente. Ninguém sabia de suas intenções, talvez nem ela mesma. Foi o destino.
As folhas secas zumbiam como dançarinas em sua frente e pegavam em suas mãos. Ela, de olhos ralos, contorcia-se para não ser levada para a claridade a uns passos à frente. Não queria expor sua pele anêmica. Sentia horror. Sim, o Sol assustava-a. Em intervalos de sombra e luz, a vereda se apresentava interminável. Teria que parar por ali mesmo, esperar a noite negra e acomodar-se ao leito escuro.
*
– Luiz Carlos, menino, leva essa sacola para D. Quinzinha, aqui mesmo no morro.
O moleque estava assoviando “Estou guardando o que há de bom em mim/ Para lhe dar Quando você chegar / Toda ternura / E todo meu amor…”.
– Tô indo. Eita, é longe! Ela mora no final da escadaria, lá encimão.
– Anda, ela vai te dar uns trocados.
– Na hora. Vou comprar o ingresso do Vascão.
Era louco pelo Vasco. Queria até ser ponta-direita do time da colina. E não perderia por nada o jogo com o Corinthians no Maraca, naquela quarta-feira. Ligou o motorzinho da canela e foi levar a encomenda de D. Quinzinha. Pegou umas moedas da velha e pediu ao Zebra, dono da bodega, o resto para completar a entrada.
Era um menino de sorriso escancarado, boa praça. Com 11 anos, já ajudava em casa. Sua paixão pela bola fazia do Morro de São Carlos um grande campo de pelada. Não existia um pedaço de capoeira em que o menino não estivesse rasgando drible. Sonhava com o Maracanã gritando seu nome “Carlinhos, Carlinhos”. Não deu certo. Filho do Seu Oswaldo – este um sambista de primeira -, viu-se levado pelo velho para as rodas de samba. D. Eurídice tinha a mesma opinião do marido, não queria o Luizinho metido no samba. Era coisa de gente grande, que gostava de tomar umas e outras para afogar as dores do mundo. Mas não teve jeito. Deu no que deu. Chamou atenção de duas feras do meio, Waly Salomão e Torquato Neto. Pronto, ninguém iria segurar o moleque. Gal Costa, em 77, gravou seu ícone “Pérola Negra”; depois, Bethânia pôs sua magnitude em “Estácio, Hoully Estácio”. Seu Oswaldo Melodia e D. Eurídice se renderam ao guri.
Nascia, assim, Luiz Melodia. Sua alma visitada pelas guitarras da jovem guarda, agora, abraçava o rock, as letras líricas criativas, a MPB, o jazz, tudo num estilo único e marcante.
*
– Por que o levei para não voltar mais para os seus? Detestei ter que convidá-lo para a minha mansão. Mas ele teria sua partida certa. Não dava mesmo para esperar mais. Seu trem já apitara duas vezes na estação. Faltava o último grito da centopéia de ferro. E muitos já tinham embarcado e estavam em seus assentos. Faltava apenas ele. Ninguém mais o ouvirá em canto aveludado. Não em viva voz. Não saberão de seu novo endereço. Terão que se contentar com a saudade. Um dia virei buscar outros tantos. Mas isso não importa agora. Detesto minha pele insensível, meu rosto silencioso, minhas mãos frias. Todos me detestam, sei disso. Não há o que fazer. Detesto ser o Anjo Soturno que levou o Luizinho, o caxeiro, o trovador de “Juventude Transviada”.
*
Naquela quarta, 08/03/1961, no Maracanã, o seu Vascão venceu o Corinthians por 2 x 0.
“Te amo, te aaamo…”

Osvaldo Epifânio, o Pife.

*Osvaldo Epifanio (Pife)

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