23 de março de 2017 • 11:14 am

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No roteiro da tirania a liberdade de imprensa é a primeira vítima. Mas pode ser pior.

Ocupam-se os espaços e montam o cenário próprio para aniquilação da opinião, do pensamento, do direito à manifestação…

Por: Marcelo Firmino
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Os tempos estão bicudos e em épocas assim a liberdade de imprensa é sempre a primeira vítima. Calar veículos de comunicação, profissionais do meio com o mínimo de isenção, é parte do roteiro enviesado da tirania. Tudo começa assim.

Os indícios vão se alastrando, a partir do momento em que as instituições vão sendo minadas e manipuladas pelos interessados em recrudescer no conteúdo e na forma de convivência com a democracia.

Ocupam-se os espaços e montam o cenário próprio para aniquilação da opinião, do pensamento, da reportagem livre, enfim, do direito à manifestação e das próprias liberdades democráticas.

É um filme velho. Perverso, ferino e até doentio.

Está rodando. Esta semana um blogueiro paulista (Blog da Cidadania) foi levado em condução coercitiva para revelar na Polícia Federal a fonte de uma informação que dera em maio passado, sobre uma possível prisão de Luis Inácio Lula da Silva. Chegando à PF, o blogueiro descobriu que eles já tinham o nome da fonte. Preservação de fonte no jornalismo é direito. O juiz Sérgio Moro não entendeu assim. Mandou prender o jornalista.

Em um trabalho isento teria que mandar prender todos os procuradores que revelaram trechos de investigações sigilosas da Lava Jato para os grandes veículos de comunicação.

Cá, como lá, a prática é a mesma. Também nesta semana jornalistas alagoanos foram notificados por um magistrado e proibidos de noticiar qualquer fato sobre um parlamentar. Nem de bem, nem de mal. Censura explícita dos tempos bicudos.

O que se percebe é que as instituições estão perdidas e contaminadas pelas ideologias políticas de ocasião. O risco é essa história se agravar mais.

Em um passado, não muito distante, os emissários da tirania invadiam casas, prendiam e arrebentavam, jornalista ou não, mas todo e qualquer cidadão que contrariasse interesses do sistema.

Se as instituições estão perdidas, a sociedade, atualmente, mais ainda por que a ideia que permeia o senso comum transcende a tirania em andamento. Até por que não raciocina que toda ira que destila, contra tudo que não concorda, pode se voltar contra si em um dado momento.

Por isso mesmo, nunca é tarde para lembrar daquele velho poema de Martin Niemoller, símbolo da luta contra o Nazismo no início dos anos 30:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…

 

 

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