10 de outubro de 2016 • 12:22 pm

Bleine Oliveira » Blogs

O governador, os bois e os heróis

Quem defende as vaquejadas argumenta que ela é parte da nossa cultura, e como tal, está amparada no art. 215, § 1º, da Constituição Federal. Esse artigo diz que “o…

Por: Bleine Oliveira
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this page

Quem defende as vaquejadas argumenta que ela é parte da nossa cultura, e como tal, está amparada no art. 215, § 1º, da Constituição Federal. Esse artigo diz que “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais…” e que “o Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”.

No contraponto, as vozes que ecoam contra essa atividade regional citam o art. 225, § 1º, VII, da mesma Constituição, para argumentar que o poder público deve “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade”.

Mesmo que não houvesse leis, basta assistir ou a ler a respeito para perceber que as vaquejadas representam absoluta violência e desrespeito aos animais. Esse argumento de que se trata de manifestação da cultura popular é um engodo.

Serve apenas para escamotear interesses financeiros por quem explora os animais como atração turística, dizendo que a atividade movimenta a economia e gera empregos.

Vaquejada é violência injustificável contra o boi e o cavalo. Nem de longe pode ser vista como um “esporte”.

Seus defensores não mostram os métodos de crueldade usados para deixar o animal pronto para a corrida. Além do confinamento prévio por longo período, há os açoites e, pasmem, “a introdução de pimenta e mostarda via anal, choques elétricos e outras práticas caracterizadoras de maus-tratos”.

Violência é violência e não se justifica sob qualquer argumento. Dito isto, manifesto surpresa, além de pesar, pela posição externada neste domingo, 9, pelo governador Renan Filho, em favor da atividade, e até se colocando à disposição para que o STF reconsidere a decisão de considerar a atividade ilegal.

É Vossa Excelência quem deve reconsiderar, governador!

Não pense somente em seus interesses políticos-eleitorais.

Pense, por exemplo, na fala da ministra Carmém Lúcia, presidente do STF, que, sobre a vaquejada, disse:

“Sempre haverá os que defendem que vem de longo tempo, se encravou na cultura do nosso povo. Mas cultura se muda e muitas foram levadas nessa condição até que houvesse outro modo de ver a vida, não somente ao ser humano”.

A vaquejada, governador, estimula a violência e a dor. Pense em reconsiderar seu posicionamento, analisando o parecer técnico da Dra. Irvênia Luiza Prada (que circula em vários textos na internet):

“Ao perseguirem o bovino, os peões acabam por segurá-lo fortemente pela cauda (rabo), fazendo com que ele estanque e seja contido. A cauda dos animais é composta, em sua estrutura óssea, por uma seqüência de vértebras, chamadas coccígeas ou caudais, que se articulam umas com as outras. Nesse gesto brusco de tracionar violentamente o animal pelo rabo, é muito provável que disto resulte luxação das vértebras, ou seja, perda da condição anatômica de contato de uma com a outra. Com essa ocorrência, existe a ruptura de ligamentos e de vasos sangüíneos, portanto, estabelecendo-se lesões traumáticas. Não deve ser rara a desinserção (arrancamento) da cauda, de sua conexão com o tronco”.

Peço ainda que leia com atenção o relato de Gabriela Toledo e Carlos Rosolen, ativistas da ONG Projeto Esperança Animal, sobre uma vaquejada que aconteceu em Cotia/SP (disponível na internet):

“Diversos animais misturados e com aparência assustada. Um vaqueiro começou a “tocá-los com um pedaço de pau” para a fila que daria acesso para a arena. O espaço apertado permitia apenas um boi por vez. Quando tinham chifres, seus chifres eram serrados com serrote. Muitos chifres sangravam. O que chamou a atenção foi a agressividade com que os vaqueiros amarravam esses animais para poder serrar a ponta de seus chifres. Alguns se debatiam, caiam no chão. Outros tentavam pular a porteira que dava acesso à arena e quando isso ocorria os vaqueiros batiam com pedaços de pau em suas cabeças. Mais de 15 animais passaram por esse procedimento”.

Em sua fala, o governador Renan Filho chama de heróis os que praticam a vaquejada. Heróis?

O dicionário define: “é reconhecida como herói a pessoa que desempenha ou toma determinada atitude de modo altruísta, ou seja, sem motivos egoístas ou que envolvam o seu ser, mas apenas o bem-estar ou segurança de terceiros”.

Os heróis, governador, servem como referência para a sociedade, são modelos de comportamento.

Assim, o adjetivo que usou, além de não caber para definir praticantes de vaquejada, é bastante questionável.

Ao se manifestar em favor da vaquejada, o governador saudou @juninhovitorio, um vaqueiro de Arapiraca, que tem se destacado como um dos melhores dessa atividade.

Fui ver o perfil de @juninhovitorio. É jovem, bonito, seguro, vigoroso. Está certo ao se definir como atleta. Tem as características e o perfil.

Mas, Juninho, saiba que sua força e determinação estão sendo desperdiçadas numa atividade violenta!

Não há heroísmo na vaquejada!

 

 

 

Deixe o seu comentário