4 de junho de 2016 • 11:03 am

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Artigo – O teatro subversivo de Plínio Marcos

Em sua linha teatral, o gosto pelo jogo do poder e a indiferença da sociedade brasileira, brigam lado a lado

Por: Da Redação
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Por Gênesis Naum de Farias*

Com a morte dos nossos principais atores shakespearianos, nosso teatro ficou órfão dos seus maiores representantes, no que tange a busca pela excelência de uma arte que ao longo do tempo se caracterizou como sendo de vanguarda. O ator, afinal, é fruto de uma busca existencial pela consolidação de uma expressão artística que integra a cultura nos seus aspectos de fomento a novas linguagens, percepções e representações das várias facetas da realidade ao repensar o panorama do próprio cotidiano através da voz dada a textos literários e dramatúrgicos, que diretamente procuram libertar a matéria dos seus anseios socioculturais. Nesse contexto, é bom lembrar que no dia 19 de Novembro de 1999 o nosso teatro também perdia um escritor como poucos; que deixava sua ausência marcada por uma proposta mais crítica para o próprio teatro através da dramaturgia marginal, de personagens que refletiam seus dramas humanos, no gosto da linguagem universal, fazendo com que o público repensasse sua própria condição.
Plínio Marcos morreu aos 64 anos e deixou sob sua marca uma trajetória polêmica, recheada de impedimentos legais que evidenciaram sua obra dentro da moderna dramaturgia brasileira. A atualidade dos seus textos revela os dramas de uma sociedade que insiste em não se preocupar em solucionar os problemas sociais inerentes ao seu desfecho, mas emplacam considerações à textura dos palcos acabando por influenciar a questão cultural do século em que viveu. Plínio Marcos foi muito mais do que uma mera coincidência; foi um movimento, foi um lamento, um texto, uma encenação, pois a atualidade nua e crua era retratada com bastante veemência. Porém, as intenções dos seus escritos não sugeriam uma solução para o ciclo vicioso da exploração mútua entre as personagens que criava, antes anunciava sua postura artística, antecipando nosso próprio fracasso político. As intenções de sua obra apontam sempre para o mesmo dilema: o combate existencial, sugerindo humanizar o espectador para um presente impessoal, imposto pelas estatísticas do estado das coisas.
Em sua linha teatral, o gosto pelo jogo do poder e a indiferença da sociedade brasileira, brigam lado a lado; era enfim, um dramaturgo magnetizador que escrevia sobre o grotesco submundo brasileiro como um bruxo diante do intenso conflito verbal da crueldade no seu sentido mais amplo de exclusões. Podemos compará-lo ao cronista carioca João do Rio, que em vida se destinou a dar importância ao mundo dos esquecidos, confirmando a lira dos que vivem nos cortiços, nos cabarés, em sagas de boemia, na berlinda da vida, no fim da noite, ressaltando a própria alma sonora dos homens como interventores do espaço e do tempo.
Este dramaturgo é herdeiro legítimo, de Nelson Rodrigues. Ambos traduziram muito de suas experiências pessoais para a cena do teatro, promovendo um envolvimento autêntico da opressão da sina dos seres humanos, veementes excluídos na zona urbana, nos guetos e, em pleno estado de sítio. Eram histórias de prostitutas, homossexuais, assassinos, presos, cafetões, vagabundos e proletários. Em tudo buscava estreitar os laços culturais da densa sociedade urbana, propondo-lhe uma amostra do fracasso como causa para re-significar a lida.
Sua obra mais encenada e a que lhe deu fama, perseguição e o estigma de escritor maldito foi Dois Perdidos Numa Noite Suja, que chegou a ser comparada ao texto Esperando Godot de Samuel Beckter, e nela dois personagens marginais – Paco e Tonho despem as máscaras da humanidade em seu estado de solidão, afetos, violências e crueldades. Ao longo da vida deixou obras que podem casar calafrios com sua desenvoltura política, porque foi vítima de prisões, censuras, boicotes e inúmeros maus tratos muito bem representados na sociedade dos excluídos. Navalha na Carne e Abajur Lilás abordam as vítimas da prostituição; Homens de Papel, Barrela e Quando as Máquinas Param descrevem os dramas das carceragens; Madame Blavastsky, Jesus Homem e Balbina de Iansã descrevem seu lado mais religioso e, Balada de um Palhaço e o Assassinato do Anão do Caralho Grande remontam sua origem circense.
A crônica maldita de Plínio Marcos se relaciona à crueza dos seus textos, apontando para a maturidade de um dramaturgo sempre indignado pela forte condição que a humanidade desencadeia seus sofisticados conflitos psicológicos. No geral, a obra teatral de Plínio Marcos era recheada de palavrões que ressaltam o embrutecimento das mais recatadas classes, para as quais não tinha restrições. Afinal, Plínio escolheu sua própria subversão e foi aquém a todas as aberturas, quando equivocava a política de forma a deturpar o seu sentido real, deixando um bordão e um segredo para a dramaturgia brasileira: o grande segredo da dramaturgia é contar uma história de forma clara.
Que os anos de ausência nos envolvam neste fascinante teatro da realidade, onde Plínio Marcos nunca esteve ausente nem será útil pensá-lo postumamente, porque sua literatura marginal se faz presente neste jogo de sombras, onde a contemporaneidade dialoga com o efêmero nos deixando uma nostalgia de que nossa postura de humildade revelará uma revolução que precisa começar no tempo presente, na ética do presente, na crônica do presente, que nos dizeres do próprio Plínio precisamos nos perguntar o que estamos fazendo na terra, para simplesmente não passarmos por ela como se estivéssemos acompanhando um enterro. Que a nossa saudade seja fruto de um adeus entoado em todos os eventos da classe teatral!

*É poeta, escritor e professor universitário.

O autor

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