8 de Abril de 2016 • 11:18 am

Mundo

Papa Francisco pede que sociedade respeite os gays e acolha os divorciados

Papa diz que os jovens devem receber educação sexual para que entendam queo mundo atual. Ele se manifestou contra o aborto e a eutanásia

Por: Da Redação
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O Vaticano divulgou nesta sexta-feira, 08, a exortação apostólica do papa Francisco “Amoris laetitia” (“Alegria do amor”), resultado da série de debates do Sínodo Ordinário da Família, ocorrido em outubro. O texto, com cerca de 200 páginas, oferece as linhas da doutrina católica que deve ser seguida por dioceses do mundo inteiro.

No documento, o líder católico afirma que a Igreja não deve discriminar os homossexuais, mas que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não está “no desenho de Deus”. A pessoa homossexual “deve ser respeitada em sua dignidade e acolhida com respeito, com o objetivo de evitar ‘qualquer marca de injusta discriminação’ e, particularmente, toda forma de agressão e violência”, diz o texto.

“Com os padres sinodais, tomei consideração sobre a situação das famílias que vivem a experiência de ter, em seu interior, pessoas com tendências homossexuais, experiência que não é fácil nem para pais, nem para filhos. Mas, desejamos antes de tudo, afirmar que toda a pessoa, independentemente da própria orientação sexual, seja respeitada em sua dignidade”, escreveu.

Como orientação para as igrejas católicas pelo mundo, o Santo Padre afirma que é preciso ajudar as famílias para “garantir um respeitoso acompanhamento para que aqueles que manifestam a tendência homossexual possam receber as ajudas necessárias para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus em sua vida”.

O Papa ainda fala sobre o casamento gay e diz que ele não pode ser equiparado coma família tradicional.”Ninguém pode pensar que enfraquecer a família como sociedade natural fundada sobre o matrimônio seja algo bom para a sociedade. Acontece o contrário: prejudica o amadurecimento das pessoas, a cura dos valores comunitários e o desenvolvimento ético das cidades e das vilas. As uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, não podem ser equiparadas simplificadamente ao matrimônio. Nenhuma união precária ou fechada à transmissão da vida garante o futuro da sociedade”, escreveu.

Segundo Francisco, “é afirmado com clareza que só a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher desenvolve uma função social plena, desenvolvendo um empenho estável e rendendo possível a fecundidade”.

Apesar de ressaltar que o matrimônio cristão “se realiza plenamente entre um homem e uma mulher”, Jorge Mario Bergoglio se abre para os casamentos civis e à convivência, quando não são motivadas “para prejudicar ou para resistir à união sacramental, mas por situações culturais”. “Nestas situações, poderão ser valorizados aqueles sinais de amor que, de qualquer maneira, refletem, o amor de Deus”.

O texto ainda mostra uma posição enérgica do Papa sobre organizações que tentam interferir no tema. “É inaceitável que as igrejas locais submetam-se às pressões neste tema e que os organismos internacionais condicionem ajudas financeiras aos países pobres após a introdução de leis que instituem que o ‘matrimônio’ entre pessoas do mesmo sexo”, ressaltou.

Para o sucessor de Bento de XVI, se há, de fato, algumas formas de união que “contradizem radicalmente” o casamento cristão, há outras que “o realizam ao menos em modo parcial e análogo”.

Aborto e eutanásia  – Na exortação apostólica “Amoris laetitia” (“Alegria do amor”), o papa Francisco firmou seu posicionamento contra o aborto e a eutanásia e criticou a “procriação ilimitada”. “A família protege a vida em cada uma de suas fases e também no seu surgimento. Para aqueles que trabalham em estruturas sanitárias, pede-se a obrigação moral da consciência. Da mesma maneira, a Igreja não sente apenas a urgência de afirmar o direito à morte natural, evitando o tratamento agressivo e a eutanásia, mas rejeita firmemente a pena de morte”, escreveu o Pontífice.

Voltando a citar a importância da estrutura familiar, o líder católico disse que não pode deixar de falar que “se a família é o santuário da vida, o lugar onde a vida é gerada e cuidada, constitui uma lacerante contradição o fato que se torne o lugar onde a vida é negada e destruída”.

Papa Francisco: não matarás.

Papa Francisco: não matarás.

Para Francisco, “é inalienável” o direito à vida para uma “criança inocente” que cresce no interior da sua mãe. “De nenhuma maneira é possível apresentar como um direito sobre seu próprio corpo a possibilidade de tomar uma decisão contra tal vida, que é um fim em si mesmo e que não pode jamais ser objeto de domínio de um outro ser humano”, ressaltou.

Porém, por outro lado, o sucessor de Bento XVI pediu uma “paternidade consciente” para os cristãos e citou frases do papa João Paulo II para destacar seu ponto de vista na questão.    “A paternidade responsável não é procriação ilimitada. A consciência reta dos casados, quando foram muito generosos na transmissão da vida, pode orientá-los à decisão de limitar um número de filhos por motivos suficientemente sérios”, escreveu.

No entanto, ele voltou a condenar os métodos contraceptivos, dizendo que as medidas “coercitivas dos países à favor da contracepção, esterilização ou aborto” é algo “inaceitável”.

Violência contra as mulheres

Em sua nova exortação apostólica “Amoris Laetitia” (“A Alegria do Amor”, em tradução do latim), o papa Francisco condenou a violência contra as mulheres, a mutilação genital feminina e a discriminação dentro do ambiente de trabalho, o que chamou de “inaceitável”.

Alguns países têm “muito trabalho para fazer” no que diz respeito aos direitos das mulheres, declarou. O Pontífice argentino ainda condenou “a violência, física e sexual” que algumas mulheres sofrem dos próprios parceiros, “o que contradiz a própria natureza da união conjugal”.

Francisco também criticou a “a comercialização do corpo feminino na atual cultura midiática”.

‘Sexualidade é presente maravilhoso de Deus’

Na exortação apostólica ‘Amoris laetitia’ (“Alegria do amor”), o papa Francisco também falou sobre a “dimensão erótica do amor” e destacou que a sexualidade foi um “presente maravilhoso de Deus”.

“O próprio Deus criou a sexualidade, que é um presente maravilhoso para suas criaturas. De nenhuma maneira podemos achar que a dimensão erótica do amor é um mal permitido ou um peso a ser suportado pelo bem da família, mas sim como um dom de Deus que embeleza o encontro entre esposos”, ressalta Francisco.

Voltando a citar falas do papa João Paulo II, o Pontífice afirma que, desde aquele Pontificado, o sexo deve ser visto como algo natural e que é “algo que se conquista”.

“Àqueles que temem que com a educação das paixões e da sexualidade prejudique-se a espontaneidade do amor sexual, São João Paulo II respondia que ser humano é ‘um chamado para a plena e madura espontaneidade das relações’, que é ‘gradual fruto de discernimento dos impulsos do próprio coração’. É algo que se conquista, do momento que cada ser humano ‘deve com perseverança e coerência aprender o que é o significado do corpo”, escreveu o líder católico.

Segundo Francisco, “tratando-se de uma paixão sublime do amor que admira a dignidade do outro, [a sexualidade] torna-se uma plena e límpida afirmação de amor que mostra de quais maravilhas é capaz o coração humano e, assim, por um momento, percebe-se que a existência humana é um sucesso”.

Ao mesmo tempo, Jorge Mario Bergoglio criticou os tempos atuais que mostram um “alto risco” de que a sexualidade humana “seja dominada pelo espírito venenoso do uso e descarte” ou que ainda “também no matrimônio, a sexualidade possa se tornar fonte de sofrimento e de manipulação”.

A ressalva do Papa sobre o tema ganhou um capítulo especial, chamado de “violência e manipulação” sobre a questão sexual.

Chamando esses fatos de “patologia”, ele condenou o sexo como um “instrumento de afirmação do próprio eu e de satisfação egoísta dos próprios desejos e instintos”.    Condenando o que chamou de “cultura patriarcal”, o Papa abominou as práticas de submissão das mulheres casadas aos seus maridos.

“Em uma época em que dominava uma cultura patriarcal, na qual a mulher era considerada um ser completamente subordinado ao homem, […] essa deveria ser uma questão a ser tratada entre cônjuges”, ressaltou afirmando que o ato sexual deve ser um ato desejado por ambos e não uma imposição de um sobre outro.

O líder católico ainda afirmou que os jovens devem receber educação sexual para que entendam que, no mundo atual, são “bombardeados com mensagens que não se preocupam com seu bem e sua maturidade”. Porém, ele criticou a educação sexual imposta apenas sobre o “sexo seguro” como se “um eventual filho fosse um inimigo do qual você precisa se proteger” ou ainda quando promove uma “agressividade narcisística ao invés de acolhimento”.

“É importante ensinar um percurso sobre as diversas expressões do amor, sobre o cuidado recíproco, sobre o carinho respeitoso, sobre a comunicação rica de sentido”, ressalta.

Papa pede que Igreja faça ‘autocrítica’ sobre matrimônios – Na exortação apostólica “Amoris laetitia” (“Alegria do amor”), o papa Francisco pediu que a Igreja Católica faça uma “saudável autocrítica” do porquê os casamentos religiosos não são “atraentes”.

Segundo o Pontífice, a entidade criou um “tom quase exclusivo sobre o dever da procriação” e propôs “um ideal teológico quase abstrato, longe das famílias como elas são”. “Essa idealização excessiva, sobretudo quando nós não revelamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio tenha se tornado mais desejável e atraente, mas exatamente o contrário. Como cristãos, não podemos renunciar ao matrimônio como meio para não contradizer a sensibilidade atual, por ser da moda”, disse o líder católico.

“Para muitos, nós acreditamos somente insistindo em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura da graça. Se já tivéssemos apoiado suficientemente as famílias, consolidado os vínculos dos esposos e preenchido de signifados a vida deles juntos… Temos dificuldades de apresentar o matrimônio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um peso para suportar durante toda a vida”, ressaltou.

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