18 de janeiro de 2017 • 11:36 pm

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Uma caldeirada indigesta que ferve nos presídios e se espalha pelo país

Para falar na disseminação das organizações criminosas que se expandiu, ao longo dos últimos anos, dos presídios do Sudeste para o resto do país, não tem como ignorar os ingredientes que há muito entraram em ebulição

Por: Fátima Almeida
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Som o comando do crime, presídios viraram panela de pressão, prestes a explodir em rebeliões

Para falar na disseminação das organizações criminosas que se expandiu, ao longo dos últimos anos, dos presídios do Sudeste para o resto do país, não tem como ignorar os ingredientes que há muito entraram em ebulição, pressurizados feito panelas de pressão que começam a explodir por todo lado, em um sistema frágil, que se revela quase incapaz de conter uma guerra fria que se arma atrás das grades com graves reflexos na sociedade.

A FÓRMULA

Os ingredientes dessa caldeirada indigesta estão lá dentro do sistema. Aí você pega meia dúzia de traficantes poderosos, que reinam em ‘impérios’ de comando do crime organizado; junta com um punhado de bandidos de altíssima periculosidade, chefes de organizações criminosas capazes das maiores atrocidades contra a vida; acrescenta alguns assaltantes perigosos, coloca todos num arcabouço sem o condimento estruturante das políticas públicas de ressocialização e mistura bem. Joga numa enorme panela de pressão – que são os presídios superlotados e com segurança precária do nosso sistema – e o que você tem? Uma bomba prestes a explodir.

A DESPRESSURIZAÇÃO

O que fazer para tentar evitar? Dividir essa ‘panelada’ indigesta em várias panelas menores (embora de estrutura ainda mais frágil), e distribuir pelo país afora, para tentar reduzir a pressão. É o que vêm fazendo os governos, há mais de 20 anos, a partir de uma decisão mal calculada do governo paulista – onde nasceu uma das mais conhecidas organizações criminosas com forte atuação no sistema prisional, o Primeiro Comando da Capital (PCC). A decisão, pactuada com o governo federal, foi acatada pelos governos estaduais ao longo dos anos, em troca do ‘fortalecimento’ do sistema prisional, que só fez inchar e se contaminar. A exportação de presos perigosos, líderes dessas facções, para outros estados, como forma de desarticulá-los começou pelo Paraná, que recebeu as primeiras remessas dessas mercadorias,  no final da década de 90 – depois abrangeu os mais distantes, inclusive Alagoas.

A DISSEMINAÇÃO

A caldeirada chegou a essas localidades já impregnada com o tempero forte e predominante das grandes organizações criminosas. Foi assim que o PCC, surgido nos presídios de São Paulo, no início dos anos 90, com ação antes restrita àquele estado, se disseminou contaminando os presídios de quase todos os estados brasileiros. Seus líderes encontraram terreno fértil num sistema frágil – ao invés de ‘presídios de segurança máxima’ – cuja ‘des’organização não acompanhou a capacidade de organização dessas facções criminosas na disseminação dessa fórmula perigosamente explosiva. E sua voz de comando do crime, hoje, ecoa de norte a sul do país.

BATIZADO

Dados do Ministério Público mostram que em 2014 o PCC tinha 10 mil criminosos filiados, 26% deles fora de São Paulo. Hoje quando o PCC entra em guerra com outras facções, mobiliza cerca de 21,5 mil bandidos “batizados” (calcula-se que o PCC já batizou cerca de 3,5% da população carcerária brasileira, calculada em torno de 607 mil pessoas). E 64% desses integrantes estão fora da fronteira original.

RIVALIDADE E MORTES

O crime organizado cresceu e se multiplicou; ganhou facções que se tornaram rivais, se enfrentam e se matam dentro e fora dos presídios. Hoje na maioria dos estados brasileiros tem bandidos formados e especializados em rebeliões e guerra urbana pelas facções e os resultados são contados em corpos. Mais de 120 mortos em rebeliões nos últimos meses: 33 em Monte Cristo (RR; 8 em Boa Vista (RO) ; 56 em Manaus (AM); 26 em Alcaçus (RN), e outras tantas notícias de violência em presídios.

Não foi um bom negócio, nem para São Paulo e nem para os outros estados, essa história de exportar criminosos. As panelas estão fervendo e explodindo em todos os presídios brasileiros.

E a guerra se mostra fria e aterradora.

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