25 de maio de 2020Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro do Covid-19 ao AI-5, mirando 2022

Após carreatas e pedidos da volta da ditadura militar, crise política no Brasil durante a pandemia só tende a piorar

Este foi um final de semana tenso para a democracia brasileira e a luta contra a pandemia em território nacional. Primeiro porque na tarde deste sábado (18), o presidente Jair Bolsonaro, na frente do Palácio do Planalto, provocou uma aglomeração entre seus apoiadores.

Durante 20 minutos, atacou governadores, afirmou que o Supremo Tribunal Federal (STF) lhe tirou o poder de revogar as medidas de restrição e fez questão de afirmar: “Não vão me tirar daqui. Não estou defendendo a economia, estou defendendo o emprego”, disse ele.

E quem achava suas declarações sobre não nos “acovardarmos” e voltar ao trabalho, em um dia de carreatas por todo o Brasil, inclusive em frente à hospitais onde médicos e enfermeiros lutava pela vida de infectados pelo covid-19, a situação escalonou no domingo (19), o Dia do Exército Brasileiro.

Em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) discursou em frente a uma multidão de militantes aglomerados que pediam o fechamento do Congresso e o retorno do Ato Institucional número 5, uma regra baixada na ditadura militar. “Não queremos negociar nada”, afirmou ele, usando camiseta vermelha em cima de uma caminhonete branca.

O discurso foi transmitido ao vivo pelas redes sociais do próprio presidente. “Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro”, disse ele, antes de começar a tossir bastante. “Chega da velha política”.

A situação provocou uma nota de repúdio entre 20 governadores e diversos políticos, ministros e entidades se mostraram perplexas e contra a ação do presidente, que, segundo ele, quer mais do que tudo, o retorno da economia. Isso porque a melhor arma contra o vírus, é o emprego. E que isto não é uma questão política e que deve ser levada sem um ‘viés ideológico’.

Diante de tantos argumentos contrários, precisamos pensar na lógica do presidente e seus seguidores para tentar entender o que eles estão fazendo/querendo.

Respire

Vamos parar e respirar por um segundo. Precisamos desenhar um cenário menos apocalíptico para a pandemia que vivemos e como ela afeta nossa saúde e economia. Independente do grau de importância destas duas.

Independente de ser um “vírus chinês” e que tenha sido “criado em laboratório”, para a premissa deste raciocínio funcionar é preciso ao menos reconhecer que existe um vírus e que ele está matando milhares de pessoas todos os dias.

Em seu pior dia, de forma oficial, sem contar os casos suspeitos, o covid-19 levou à morte mais de 10 mil pessoas em todo o mundo (14 de abril). Entre os dias 16 e 17, mais de 4.500 pessoas morreram só nos EUA.

Como comparativo, em dados mais recentes, a tuberculose matou por dia mais de 4.500 em 2018. Um número ridiculamente alto e que sim, precisa ser atacado e reduzido.

Por sorte, hoje, com os métodos preventivos existentes, como a vacinação e campanhas promovidas pelo Ministério da Saúde e secretarias de saúde dos estados, o cenário já não é tão grave. Mas o do atual vírus ainda é.

Fome

O problema é que as pessoas estão perdendo o emprego. Dentro de pouco tempo ficando sem dinheiro. E não podendo comprar comida, ficarão com fome, dependendo de doações ou auxílios para se sustentar.

E isso é uma realidade. Comer é uma necessidade básica e sem isso o corpo fica fraco, com imunidade baixa e um alvo perfeito para doenças infecciosas. Fora o caos social que poderia ser levado pelo desespero pela falta de comida. Entendemos isso como uma realidade.

Eles contra nós

O que fica difícil de entender, neste cenário, é relacionar tudo com apenas uma questão política. Antes de tudo, é importante salientar: não há nada absolutamente certo ou com 100% de razão.

Não precisamos pegar apenas o que diz um lado da bolha, um lado da esfera partidária. Este que está escrevendo não tem a noção completa da situação atual. Nem mesmo você que está lendo.

Politicamente falando, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ou do Senado, Davi Alcolumbre, não são santos. O mesmo pode-se dizer de governadores inimigos políticos do presidente Bolsonaro, como João Doria (SP) ou Wilson Witzel (RJ).

Qual a lógica de pedir o retorno da ditadura ‘contra a ditadura dos governadores’?

Da mesma forma, antes de aceitar cega e passionalmente tudo o que eles falam como um axioma, Jair Bolsonaro e seus seguidores não são figuras divinas livres de pecados. Ninguém o é! Claro.

Mas estamos falando de contatos com laranjas, milícias, desvios de verba, ofensas nada bíblicas, que, aliás, mesmo buscando a liberdade através da verdade, abusam de factoides em suas retóricas. “Mas pelo menos não são do PT”, pensariam alguns. Bem, pare para reler esse parágrafo e pondere esse possível questionamento.

De qualquer maneira, o lado bom disso é que, se nem todos estão 100% corretos, é possível pegar a fatia certeira de cada ponto de vista político, acadêmico, econômico e científico para se aproximar de um cenário ideal.

Cenário ideal

Infelizmente, não há cenário ideal para esta pandemia. Estamos em um momento infeliz em que, não importa o que aconteça, economicamente, seremos atingidos. A única concessão a ser fazer é escolher entre países quebrarem financeiramente e salvar o máximo de vidas ou quebrar financeiramente e salvar o mínimo.

Independente de muito serem infectados ou não, como afirmou Bolsonaro ao dizer que 70% de nós seremos infectados com isolamento social ou não, a questão é que não peguemos ao mesmo tempo. Com isso acontecendo, não haverá vaga para todo mundo em UTIs. Não há suficiente para dezenas de milhares ao mesmo tempo.

Com a reabertura econômica, como clamada pelo presidente e empresários, haverá um massacre nesta pandemia no Brasil. E entre os mortos, estarão pessoas vitais, peças econômicas importantes: serão professores, empreendedores, donos de empresas, provedores de família, líderes políticos e organizacionais e principalmente profissionais da área de saúde, como técnicos, enfermeiras e médicos.

O que acontece em um cenário em que, de forma apressada, abandonamos o isolamento social? Milhões morrem. Não milhares: a doença já mata no Brasil mais de 6% dos infectados e se houver uma explosão de contágio, haverá pessoas se afogando nos próprios pulmões, em casa, pois não há vagas em hospitais. E em um país de 210 milhões de habitantes, seria um estrago sem precedentes.

Tudo isso para o que? Pra que em 2022 Bolsonaro jogue a culpa para a ‘extrema-imprensa’, governadores e ministros do STF, que economicamente irresponsáveis e conduzidos por uma histeria jogaram o Brasil em crise sem precedentes? E dizer que não conseguiu melhorar o país não pela pandemia, mas pela ação de terceiros, e por isso precisaria de uma nova chance? Para se reeleger novamente?

Bolsonaro já disse que será julgado pela história e sabe dos riscos que está tomando em defender o retorno da economia. E que vale o risco – em vidas humanas.

Eles contra nós

Respire novamente e pare para pensar: no mesmo dia em que ele falou aos seguidores religiosos, a transmissão do festival One World: Together At Home, da ONG Global Citizen arrecadava mais de US$ 127,9 milhões.

A live, um grande show sem precedentes, contou com participações de mais de 100 artistas e grupos, como Rolling Stones, Lady Gaga, Paul McCartney, Elton John, Billie Eilish, Stevie Wonder,Taylor Swift e Byoncé.

Ao ponderar o nível de esquerdice destes artistas, tente ponderar sobre as suspensões de eventos bilionários, como as Olimpíadas, o Mundial de Fórmula 1, no futebol a EuroCopa e Copa América, Libertadores e Champions League, no entretenimento a produção de jogos de videogame, adiamento de filmes já que cinemas estão fechados, Parques da Disney e até mesmo os Cassinos de Las Vegas.

Como o adiamento destes eventos, ao custo de bilhões de dólares, pode ser interpretado como um ataque para alguém que, do ponto de vista humano, é tão irrelevante? Quão narcisista e egoísta é preciso ser para achar que o número de mortes provocado pela ‘gripezinha’ é uma fraude e que o exército precisa ‘nos salvar’?

Como não se enxergar como massa de manobra, usado e manipulado por um pequeno grupo, com pessoas que apesar de atacarem instituições públicas, são políticos de carreira por praticamente toda a sua vida, mamando nas tetas do governo e repassando isso para seus familiares?

Os filhos Carlos, Flavio e Eduardo Bolsonaro, principais acusados de comandar as milícias digitais do pai presidente, Jair Bolsonaro

Com tanta fome de poder, não é de se imaginar que queiram manter isso. Mesmo que custe a vida de milhares, quem sabe milhões de pessoas. Estamos em um caminho perigoso, traçado por alguém que se aproveita da pior situação possível no Brasil e no mundo para tracejar sua campanha de reeleição em 2022.

Pois bem: Bolsonaro disse que será julgado se estiver errado. Para ele, Governadores, STF e imprensa conspiram contra ele. E a mensagem foi conduzida para seus seguidores cegos e fieis. Que ele seja julgado então. E é preciso se lembrar, e nunca se esquecer, de todos os que estão lutando contra o avanço dessa pandemia.

Mesmo que conduzidos a isso, eles ainda assim estão agindo de má índole, levando à população para um abatedouro – não é como se só eles morressem, estamos todos no mesmo barco. O mais triste de tudo é que seria muito bom que realmente houvesse uma conspiração contra Bolsonaro e que o vírus não existisse. Seria até mais simples. Infelizmente, a ameaça é real. Tanto a pandemia, quando o pandemônio.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.