29 de fevereiro de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Bolsonaro evita imprensa e ignora morte do miliciano ligado ao filho Flávio

Ex-PM é citado na investigação que apura a “rachadinha” no gabinete do filho do presidente; Ele temia queima de arquivo

O presidente Jair Bolsonaro evitou falar com a imprensa por duas vezes nesta segunda-feira (10). Empolgado até para dar bananas aos comunicadores, desta vez sua esquiva aconteceu um dia após ação policial resultar na morte do ex-capitão Adriano da Nóbrega. Este é acusado de comandar a mais antiga milícia do Rio de Janeiro e suspeito de integrar um grupo de assassinos profissionais no estado.

Foragido há mais de um ano, o ex-PM é citado na investigação que apura a prática de “rachadinha” no gabinete do hoje senador Flávio Bolsonaro quando o filho mais velho do presidente era deputado estadual no Rio de Janeiro. E deixou esse recado na esplanada, após falar com apoiadores:

“Queria compartilhar com vocês, mas tudo será deturpado. Então lamento, mas não vou conversar com vocês. O dia que vocês, com todo o respeito, transmitirem a verdade, será muito salutar conversar meia hora com vocês. Falar de problemas dos mais variados possíveis, dá para resolver, gostaria de compartilhá-los. Repito: não o faço porque, ao haver deturpação, a solução ficará mais difícil, talvez impossível”. Jair Bolsonaro, presidente.

Ativo nas redes sociais, o presidente também não comentou o tema em nenhuma de suas publicações em redes sociais feitas ao longo deste domingo (9) e segunda-feira. Isso porque ele adora comemorar ações policiais em que os alvos são encontrados e mortos.

Bolsonaro foi aconselhado a evitar o tema e a desviar do assunto. De acordo com assessores palacianos, o silêncio do presidente reflete sua preocupação com a situação de seu primogênito.

O silêncio também foi adotado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e pelos filhos do presidente com mandato —além de Flávio, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ).

Ativo nas redes sociais, Eduardo não comentou a morte do ex-capitão do Bope. Desde que a notícia veio à tona, na manhã de domingo, Eduardo retuitou vídeo que mostra a participação do pai em um evento evangélico e fez postagens com críticas à oposição.

Confronto com imprensa

A aliados, Bolsonaro já deixou transparecer a inquietação que tem com a apuração de um esquema de “rachadinha”, que consiste em coagir servidores a devolver parte do salário para os parlamentares. O caso já levou a ações de busca e apreensão em endereços de Flávio.

Bolsonaro já confessou temer que as apurações possam resultar em algo mais grave. Publicamente, ele evita comentar o caso e já encerrou uma série de entrevistas quando foi questionado sobre o assunto.

Na mais recente delas, em dezembro do ano passado, pediu que repórteres “ficassem quietos” e disse em tom ofensivo que um deles tinha “uma cara de homossexual terrível”. Na manhã desta segunda-feira, Bolsonaro não permitiu que a imprensa fizesse perguntas e dirigiu críticas aos jornalistas sem apontar motivo específico.

Flávio Bolsonaro

De acordo com o Ministério Público, contas bancárias controladas pelo ex-policial foram usadas para abastecer Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio suspeito de operar o esquema no gabinete do então deputado estadual no Rio. Queiroz é amigo do presidente da República.

Flávio Bolsonaro passou o dia em Brasília, mas nem ele nem seu advogado quiseram se manifestar sobre a morte de Adriano.

Adriano teve duas parentes nomeadas no antigo gabinete de Flávio. Mensagens interceptadas com autorização judicial mostram ele discutindo a exoneração da esposa, Danielle da Nóbrega, do cargo.

Ele também foi defendido por Jair Bolsonaro, então deputado federal, em discurso na Câmara em 2005, quando foi condenado por um homicídio. O ex-PM seria absolvido depois em novo julgamento. Enquanto estava preso preventivamente pelo crime, foi condecorado por Flávio com a Medalha Tiradentes.

Parlamentares de diversos partidos consideraram a morte de Adriano um episódio grave, mas dizem acreditar que não haverá consequências no Congresso pois Flávio, que já assumiu o mandato como alvo das suspeitas, costuma ter atuação mais discreta no Senado.

Queima de arquivo

O governo da Bahia diz não ter imagens da operação que matou o ex-PM Adriano da Nóbrega. De acordo com a secretaria de segurança baiana, não é praxe realizar filmagens.

Ele foi morto em uma fazenda que abriga um parque de vaquejada na Bahia com dezenas de bois e vacas cercados por coqueiros e, a 8 km de um sítio rodeado por casas e pequenos estabelecimentos comerciais. Estes foram os dois últimos esconderijos do miliciano antes de ser morto no domingo (10) durante operação policial.

O cenário em Esplanada (a 170 km de Salvador) que serviu de abrigo ao ex-capitão do Bope do Rio foi descoberto pela ação conjunta das polícias baiana e fluminense.

Os esconderijos e a rota de fuga indicam que Adriano recebeu ajuda, mas os donos dos imóveis, um pecuarista e um vereador do PSL, negam vínculo com ele e conhecimento de que se tratava de um miliciano do Rio foragido da polícia.

Segundo a versão oficial, Adriano tinha em sua mão uma pistola austríaca 9 mm e foi baleado após reagir a tiros contra a polícia. O miliciano estava sozinho em um terreno cercado.

Nesta segunda (11), moradores disseram que ouviram barulho de tiros por pouco tempo. A reportagem identificou apenas uma marca de bala dentro da casa, em uma janela de madeira seguindo a trajetória de dentro para fora.

O advogado de Adriano disse que ele relatou a preocupação nos últimos dias de que pudesse ser morto como “queima de arquivo”.

O empresário e pecuarista Leandro Abreu Guimarães, dono da fazenda e parque de vaquejada Gilton Guimarães, também foi preso durante a operação das polícias da Bahia e do Rio sob acusação de porte ilegal de armas —ele tinha duas espingardas e um revólver não registrados. Leandro e Adriano já se conheciam do circuito de vaquejadas, conforme a versão do pecuarista

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