28 de maio de 2020Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro exonera diretor da PF e Moro pode deixar governo já nesta sexta

Presidente não quer que inquéritos da PF sobre fake news ou organização a favor do Ai-5 alcance ele e seus filhos

Após a ameaça, a canetada: o presidente Jair Bolsonaro realmente exonerou o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União desta sexta-feira (24), um dia após conversa com o ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro, que não gostou da saída de seu homem de confiança. E pediu demissão, tendo que ser persuadido por Bolsonaro e generais da decisão.

E também nesta manhã, Moro anunciou que fará um pronunciamento às 11h, no Ministério da Justiça.

Moro já foi alertado por aliados, ainda no fim da noite passada (23) de que a saída de Valeixo seria oficializada no Diário Oficial desta madrugada, enquanto ainda negocia com o Palácio do Planalto sua permanência como ministro. Ou seja: Moro, que teria uma vaga no STF garantida por Bolsonaro, já sabe que não pode confiar na palavra do presidente.

Maurício Valeixo, comandante da PF, era homem de confiança de Moro, mas Bolsonaro insistiu em exonerá-lo

A exoneração, inclusive, foi publicado como “a pedido” de Valeixo no Diário Oficial, com as assinaturas eletrônicas de Bolsonaro e Moro. Só que o ministro não assinou a medida formalmente e nem mesmo foi avisado oficialmente pelo Planalto de sua publicação.

Como se não fosse o bastante, Valeixo nem mesmo teria “pedido” sua exoneração ao Planalto. E não há substituto no comando da polícia, por ora, nomeado. Claramente, Bolsonaro passou por cima de Moro, agora em processo de fritura e, potencialmente, o novo ‘comunista’ inimigo do presidente e seus seguidores.

Para integrantes da cúpula da Polícia Federal, a relação de Sergio Moro e Jair Bolsonaro já terminou desde o ano passado e é zero a confiança entre os dois. Na crise do coronavírus, eles se afastaram ainda mais, defendendo posições antagônicas sobre o isolamento social.

Nomeação

Uma solução para sua permanência vem sendo discutida pelos ministros generais da Casa Civil, Walter Braga Netto, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. Segundo assessores presidenciais, uma indicação positiva havia sido dado pelo ministro da Justiça.

Um nome que conta com a simpatia do ex-juiz da Lava Jato para dirigir a PF, segundo aliados do ministro, é o do diretor do Depen (departamento penitenciário nacional),​ Fabiano Bordignon​.

Já Bolsonaro defende a nomeação para o posto do diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Alexandre Ramagem, ou do secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres.​

Os filhos Carlos, Flavio e Eduardo Bolsonaro, principais acusados de comandar as milícias digitais do pai presidente, Jair Bolsonaro

CPMI da Fake News

O que mais incomoda Bolsonaro na PF é o aumento dos inquéritos que apuram um suposto esquema de fake news para atacar autoridades, entre elas alguns de seus adversários políticos.

Além disso, a PF averígua uma ligação com deste grupo com as manifestações pró-golpe militar promovidas por grupos bolsonaristas, realizadas no domingo (19). O próprio presidente participou de uma delas, em Brasília.

Investigações da PF podem ligar filhos de Bolsonaro à organização que pedia volta do AI-5

Os dois casos, sob relatoria do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, devem ser tocados por uma mesma equipe de policiais federais e isso desagrada ao presidente.

A apuração sobre fake news, aberta pelo próprio STF, envolve a suspeita de que filhos de Bolsonaro, entre eles o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), estejam por trás de um gabinete do ódio supostamente mantido pelo Palácio do Planalto para atacar desafetos políticos.

Essa hipótese também foi levantada em Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o caso no Congresso.

Popularidade

Segundo o Datafolha, Moro se firmou como o ministro mais popular do governo Bolsonaro, com aprovação superior à do próprio presidente. No início de dezembro de 2019, Moro tinha 53% da população avaliando sua gestão como ótima/boa.

Outros 23% a consideram regular, e 21% ruim/péssima. Por outro lado, Bolsonaro tinha números mais modestos, com 30% de ótimo/bom, 32% de regular e 36% de ruim/péssimo.

O tridente de popularidade do governo Bolsonaro pode perder um de seus integrantes

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.