12 de agosto de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Brasil sem máscara: O desembargador da carteirada e o cidadão que levou choques e uma gravata

Figuras de poder se colocaram em um totem legitimado e a população se tornou inimiga na visão das forças de segurança

Neste final, dois casos emblemáticos no sudeste brasileiro. Um na orla de São Paulo, outro na do Rio de Janeiro. Ambos com agentes das Guardas de Segurança locais, abordando homens sem máscara de proteção, item obrigatório durante esta pandemia.

O desembargador de São Paulo

Em Santos, o que se apresentou como “desembargador Eduardo Siqueira”, bateu boca com a guarda municipal por se recusar a usar máscara. Por meio de decreto naquele município, o item é obrigatório e descumprir a medida gera multa de R$ 100.

Dizendo que “decreto não é lei”, o desembargador fez uma ligação, chamou o guarda municipal de analfabeto, este que de forma educada e falando ‘por favor’ pedia que o item de segurança fosse usado. Depois. rasgou a multa e foi embora.

O cidadão no Rio de Janeiro

De acordo com imagens postadas nas redes sociais, a Guarda Municipal usou uma arma de choque para conter um homem que teria se recusado a usar máscara de proteção ontem à tarde na praia de Copacabana, zona sul do Rio.

Os guardas cercaram o homem, que no vídeo, já estava usando a máscara, mas continuava sendo intimidado durante a abordagem. Não há imagens do que teria acontecido antes, mas é preciso enfatizar: ele já estava de máscara.

E após mostrar o mínimo de resistência, levou uma gravata de um dos guardas. Ele era conduzido quando um dos guardas tentou pegar suas pernas, para que ele fosse carregado. O homem gritou dizendo que não estava fazendo nada, uma voz dizia que ele estava resistindo. Foi quando o imobilizaram.

Enforcado, ele se desesperou, disse que estava parado, as pessoas continuaram gritando. Quando se desvincilhou, foi atingido por armas de choque. E algemado, foi conduzido até uma delegacia, onde foi autuado pelos crimes de desacato, desobediência e resistência. Ele insistia: ‘não estou fazendo nada’.

A diferença

Não é preciso desenhar muito para entender o que ouve de diferente nas duas abordagens. Na primeira, houve o uso do poder e da velha carteirada para se livrar de uma punição.

O ar de autoridade, de estar acima da lei, de ser melhor do que um cidadão e saber que, com dinheiro e status, se livrará de tudo que for jogado contra ele. Este é o Brasil e nós sabemos: mesmo que por milagre seja condenado, nada acontecerá com o desembargador.

Já com o cidadão, o civil, toda aquela aplicação de força se mostrava necessária? Mesmo com testemunho em câmera, a truculência se mostrou presente. Quatro, cinco agentes para imobilizar uma pessoa por não usar máscara, mas que já estava com máscara.

O desembargador nunca levaria um disparo de arma de choque. O cidadão nunca receberia um pedido de desculpas após usar a máscara. A diferença é essa: as figuras de poder se colocaram em um totem legitimado e a população se tornou inimiga na visão das forças de segurança.

Claro, nenhuma novidade quanto a isso. Aqui é o Brasil. Com, ou sem pandemia, sempre foi assim.

 

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