14 de novembro de 2019Informação, independência e credibilidade
Brasil

Com governador glorificando violência policial, RJ seguirá matando suas crianças

Witzel já fez ameaças: quem não trocar armas por bíblias, será morto. Mesmo com civis no meio do caminho

Witzel, sorridente, com seu rosto cheio de balas de fuzil, um presente do BOPE carioca

Como mais um nome da ‘nova política’, aquela que aproveitou o vácuo da campanha eleitoral do atual presidente Jair Bolsonaro (PSL), o ex-juiz federal e ex-fuzileiro naval Wilson Witzel (PSC) surpreendeu no primeiro turno do Rio de Janeiro, recebendo mais de 40% dos votos válidos e sua improvável eleição se tornou certa no segundo turno.

Com discurso forte contra o crime e defendendo a ideia de atirar primeiro e perguntar depois, logo sua retórica foi aprovada pela população que estava “cansada de corrupção e da violência”.

Triste ironia é que o óbvio aconteceria e está acontecendo: no Rio, praticamente em toda toda semana há uma vítima de bala perdida. Muitos inocentes. De acordo com a plataforma colaborativa Fogo Cruzado, com uma média de 23 tiroteios/disparos de arma de fogo por dia, 1837 pessoas já foram baleadas no Grande Rio este ano: 955 delas morreram e 882 ficaram feridas.

Só neste ano, 16 foram crianças. E Ágatha Félix foi (mais uma) gota d’água nessa escalada.

Ágathá, de 8 anos, morta com um tiro nas costas no Alemão | Foto: Arquivo pessoal

Durante uma operação policial no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, uma criança de 8 anos foi baleada dentro de uma Kombi. Ela do lado da mãe quando foi atingida por um tiro de fuzil nas costas.

Além disso não ter sentido (afinal, uma criança de 8 anos não deveria nunca ser fuzilada), a Polícia não deve abrir fogo próximo de tantos civis. Mesmo que essa seja a defesa de um líder sociopata:

Não é uma guerra social contra a polícia. Nós, como sociedade, precisamos cada vez mais de sua defesa. Mesmo que algumas lideranças defendam o posse e porte de arma para a população – estes dizem apoiar forças de segurança, mas parecem querer terceirizar para os civis a própria defesa pessoal. A crítica não é contra a polícia. Mas como ela vem atuando com as desorientações de seus comandantes.

Fixado em defender o uso de sniper, Witzel pareceu viver seu grande momento neste ano quando uma situação de sequestro no RJ, feito por um homem usando uma arma de brinquedo, terminou com a morte do mesmo. Ele foi alvejado por tiros de sniper.

Witzel ficou tão feliz que precisou comemorar no local, ao chegar de helicóptero, comemorando como um desequilibrado, dando socos no ar, cerrando os punhos e com sorriso no rosto.

Diz ele que ficou feliz por nenhum inocente ter morrido. Válido. É mais provável ainda que tenha sido pela validação do uso de snipers contra sequestradores. Mas um líder, formador de opinião e, principalmente, se dizendo cristão, não deveria em hipótese nenhuma comemorar, como um desequilibrado, o desfecho daquele sequestro.

Demonstre alívio pelos inocentes; parabenize a ação praticada com destreza pelo agentes envolvidos; respeite os familiares do homem que estava com uma arma de brinquedo.

Não desça de um helicóptero no meio de uma ponte para comemorar, feito um desequilibrado, o desfecho daquela ação, para jogar pros seus fãs e já ir preparando caminho para sua eleição presidencial.

Mas, claro, quando ele comemora o batido discurso de bandido bom é bandido morto, mesmo quando este está próximo de civis que não tem nada a ver e querem apenas seguir com suas vidas, ele manda uma mensagem clara aos agentes de segurança: vocês estão não só autorizados a atirar para matar, como a recomendação é essa.

Deste jeito, muitos bandidos vão morrer. E, ao mesmo tempo, estatisticamente, muitos inocentes também. Como aconteceu com Ágatha, a 16ª criança neste ano:

Mais cedo neste ano, o carro de uma família foi fuzilado pelo exército, também no Rio de Janeiro. O presidente Jair Bolsonaro demorou a falar, mas quando falou, falou besteira: disse que não é possível o exército assassinar ninguém. Apesar de duas pessoas extremamente inocentes terem sido assassinadas por alguns dos mais de 100 tiros dos quais foram alvos.

E Witzel, que como um desequilibrado desceu de helicóptero rapidinho para comemorar a validação de sua ação com snipers, não falou nada sobre a morte de Ágatha Félix. Ela tinha 8 anos. E foi fuzilada nas costas, ao lado do avó, pela própria polícia.

Quantos inocentes mais precisam morrer para o governador do Rio de Janeiro, e muitos outros governantes (e o próprio presidente) perceberem que essas ações estão dando errado?

Continuando nesta tocada, o futuro diplomata Eduardo Bolsonaro o deputado federal (PSL-SP) e filho 03, teria dado uma dica de como o enlutado avó de Ágatha deveria procurar por justiça? Fazer justiça com as próprias mãos ou assistir teletubbies?

Está tudo errado. A começar pelos nosso governantes.

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