7 de julho de 2020Informação, independência e credibilidade
Alagoas

Covid-19: Com 20 mortes por dia nas últimas 5 semanas, Alagoas não pode relaxar em decreto

O problema não é a economia, mas a pandemia; Sem dinheiro, população se preocupa com as dívidas, evita compras e teme sair e se contaminar

Com as dívidas se acumulando e dados econômicos batendo recordes negativos durante a pandemia, o setor econômico em Alagoas parece ter chegado em seu limite. Assim como nas demais regiões do Brasil, o comércio alagoano pressionou o governo para a reabertura de suas atividades, ainda que de maneira “segura”, durante a pandemia do coronavírus.

O governo pareceu ter cedido à pressão: Fecomércio-AL e Associação ou Aliança Comercial já tinham até uma data para o retorno da normalidade: esta segunda-feira, 22 de junho, o dia anúncio do novo decreto de emergência.

Protocolos para a reabertura das atividades econômicas foram vazados e, depois, prontamente liberados, com tudo indicando que o cidadão poderia, enfim, se sentir seguro e apto a fazer suas compras. Mas o vírus não concordou com isso.

O governo de Alagoas confirmou, na sexta-feira (19), que o atual decreto de isolamento social, que vale até as 23h59 de hoje será prorrogado. A data de encerramento do novo decreto ainda não foi anunciada. Isso após uma reunião técnica, com representantes dos setores produtivos, pesquisadores, médicos, igrejas, Ministério Público Estadual (MPE-AL), Procuradoria da República em Alagoas (PRF-AL).

Os responsáveis pelas atividades econômicas, como as áreas do comércio, turismo, transporte e outros serviços, tentaram justificar com as evidentes dívidas, demissões e balanços pífios do comércio que permanecer do jeito que está não seria possível. Mas os argumentos não foram suficientes.

Sejamos justos: é inviável um estabelecimento durar com as restrições de hoje. Se os grandes sofrem, o que não dizer dos pequenos: mesmo aqueles que podem receber clientes ou que se adaptaram para fazer delivery, os números não estão batendo. Está cada vez mais difícil perdurar mantendo funcionários sem serem demitidos ou mesmo mantendo pontos comerciais longe da falência.

Só que o problema não é a economia: é a pandemia.

Este é um trecho do gráfico mais recente do Boletim Epidemiológico da Sesau, mostrando o avanço do coronavírus em Alagoas. E as últimas semanas foram assustadoras. SE é a sigla para Semana Epidemiológica: o primeiro caso em Alagoas foi na semana 11 (14 semanas atrás) e a primeira morte aconteceu apenas na semana 14. Mas os números dispararam.

Se há 5 semanas contávamos 177 mortos, hoje já temos 884E na SE 25, que encerrou com um total de 866, chegamos em uma média de quase 20 mortes por dias, nas últimas 5 semanas. O pico foi na SE 22, com 158 óbitos confirmados. As duas mais recentes registraram 141 e 143, respectivamente, o que mostra que não houve recuo. As mortes quintuplicaram neste período.

Com o avanço de testes, os casos confirmados também explodiram: na janela de cinco semanas, o número de casos foi nove vezes maior. Somente na última semana, a Sesau contou mais 6.811 testes positivos. Só esses novos casos já são superiores aos 5.630 que contávamos na SE 21.

Como justificar o retorno das atividades se, mesmo com um distanciamento meia-boca, os números só avançam?

Algo de muito errado aconteceu nesta pandemia. E toda pessoa sensata sabe o que aconteceu: até hoje há quem faça pouco caso do uso de máscara, acredita que governadores sabotam a economia para derrubar o governo federal e ainda duvidam do número de mortes. “Morre gente o tempo todo, mas o comércio não para”, dizem alguns diante da “histeria”.

Pois bem: estamos próximos de 100 dias com decretos de emergências e restrições no comércio. É horrível para os lojistas e seus funcionários. Situação economicamente temerária. Mas há como ficar pior: com os empresários ou seus empregados morrendo, além de seus próprios consumidores, que foram em vão às ruas, mesmo sem ter dinheiro suficiente para compras que não fariam.

Os números não mentem: se em cifrões está no vermelho, em saúde pode ficar ainda mais crítico. E não é saindo de uma quarentena que nunca entramos que a situação vai melhorar.

São Paulo como exemplo

Se for tomada a reabertura do comércio em São Paulo, maior cidade do país, como exemplo, vemos os empresários frustrados. Lojistas de shopping centers e de rua dizem que as vendas desde 10 de junho mostram que o consumidor ainda teme ir para as ruas e gastar nas compras.

Além do medo de contrair covid-19, o desemprego e o receio da perda da renda estão atrapalhando o comércio. E se isso não mudar logo, o setor acredita que vai haver mais falências.

Nem mesmo o dia dos namorados se salvou: as vendas caíram 55% se comparadas com 2019. Foi menos pior, mas um desastre como nos meses anteriores: em abril e maio as vendas despencaram quase 70%.

Segundo o diretor e membro do conselho da Univinco (União dos Lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências), Eduardo Ansarah, as vendas ficaram aquém do esperado:

“É nítido que as pessoas estão preocupadas com as contas a pagar. Quem perdeu o emprego se pergunta como vai sair do atoleiro. Ele só compra o necessário. O pessoal não está com dinheiro na mão”. Eduardo Ansarah, diretor do Univinco.

Ou seja, a questão foi além da pandemia: as pessoas precisam se recuperar financeiramente antes da reabertura precoce. Até mesmo porque, em São Paulo, seguindo as regras, os locais se tornaram “hospitais” para receber clientes, que mesmo assim não vieram em peso:

“A gente preparou um verdadeiro hospital nos shopping centers para garantir a segurança das pessoas, uma situação mais segura que na rua. Mas as pessoas estão com medo de sair de casa”. Nabil Sahyoun, presidente da (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping).

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