9 de abril de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Danoso como o vírus, Bolsonaro mostra que precisa ser retirado de onde está

Contra tudo e contra todos, presidente revela novamente extrema falta de empatia, exclusiva preocupação econômica e dá a entender que, seja lá quantos morram, ainda assim seria pouco

Poucas vezes nós, como indivíduos em sociedade, temos a chance de ser contemporâneos de um evento realmente grandioso, com poder de alterar o curso da história.

Seja a explosão de bombas atômicas no final da 2ª Guerra Mundial (1945), a descoberta da vacina contra paralisia (1953), pouso do homem na Lua (1969) ou o 11 de setembro de 2001. Todos mudaram o curso da humanidade, de uma forma ou de outra.

São eventos magnânimos, que se tornam referência praticamente eternas no curso da história, tal qual a Guerra de Troia (1200 ac), a imprensa de Gutenberg (1430), a Revolução Francesa (1789). E a Peste Negra (1350) ou Gripe Espanhola (1920).

Estes dois últimos exemplos, de pragas letais que afetaram praticamente toda a humanidade, infelizmente, ressoam próximo demais com o momento em que vivemos, graças à pandemia do novo coronavírus, responsável pelo Covid-19.

Mas o cenário não precisa ser assustador. Ainda não viramos história: vivemos e fazemos parte dela. Diferente de séculos (ou mesmo apenas um século) atrás, hoje temos recursos, informações, avanços na medicina e a ciência como um todo ao nosso lado.

E quando a lógica não é seguida?

Infelizmente, no meio dessa pandemia, testemunhamos uma capítulo negativo. Aconteceu quando o presidente Jair Bolsonaro, em um dos maiores exemplos de burrice política, falta de tato humano, negação científica ou até mesmo traços de psicopatia, fez um pronunciamento egoísta, olhando para o próprio bolso, umbigo e incentivou as pessoas a saírem de casa.

Carregado no fígado, repleto de ironias raivosas e ataques à imprensa e governadores, o conteúdo do pronunciamento teve as mãos do filho vereador Carlos Bolsonaro, do filho senador Flavio Bolsonaro e dos ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Onyx Lorenzoni (Cidadania), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Walter Braga Netto (Casa Civil).

E o conteúdo foi desastroso. Bolsonaro, claro, mais uma vez não pensou em vidas humanas. Se preocupou apenas com o ponto de vista econômico e, claro, político. Afinal, apesar de todas as promessas de não agir com “viés ideológico”, não há nada mais que esse inconsequente faça, que não seja agir de forma política.

O presidente plantou alguns cenários preocupantes:

  • jogou para governadores, e não ele, a culpa da certa crise econômica que está por vir, pois mostrou mais uma vez ser contra o fechamento de escolas, comércio e indústria como um todo. Ao final dessa pandemia, ele tira o corpo da reta e diz não ser culpado pela recessão;
  • Deu a entender que quem tem mais de 60 anos é descartável, o que seria interessante para sua reforma da previdência, afinal quantos mais aposentados mortos, menos precisa gastar com esses. Novamente, pensando na economia, e não na saúde;
  • Jogou no lixo todo bom trabalho, técnico e de conscientização, de um dos seus únicos ministros que prestam, Luiz Henrique Mandetta, ao falar o completo oposto de tudo o que o médico que está à frente da pasta da Saúde recomendou. Toda a “lógica óbvia”, aqui nesse texto, foi praticamente desenhada por ele;
  • Convoca seu exército digital para a briga. Vendo o jogo virar com a popularização do ministro da Saúde e da atuação de governadores, Bolsonaro notou, no único local que olha, nas mídias sociais, que está perdendo aprovação. E aproveitando-se do discurso psicótico de apoiadores como o velho da Havan, Roberto Justos ou o dono do Madero, ele quer virar o jogo para si.
  • Comprar briga com o Congresso e provar que tem força. Neste cenário, mais assustador, o presidente mostra que de verdade não se importa com as consequências. Ele quer ouvir apenas quem o apoia, ciente de que tem pleno apoio das forças armadas para se manter no governo. Custe o que custar.

 

Jair Bolsonaro se revelou, novamente, com todas as letras, um homem perigoso. E dentre os que votaram nele, com certeza ouviu o outro lado, todos os outros lados, aliás, apontando tudo o que havia de ruim, inútil, miliciano e facínora nessa figura. Aviso, não foi o que faltou.

Mais do que dinheiro

Apesar de todos os cientistas e líderes mundiais dizerem o contrário, o presidente segue se achando autossuficiente, ouvindo seus filhos, um astrólogo terraplanista, e dá a entender que o grande problema será econômico. Que há quem queira lutar contra isso. Pois bem:

  • Nem quando Ayrton Senna morreu, a corrida parou. Desta dez, o mundial de Fórmula 1 está suspenso;
  • As Olimpíadas, pela primeira vez sem ser durante uma Guerra Mundial, suspensas;
  • Da mesma forma, eventos esportivos em todo o mundo, como a NBA, futebol e tudo mais parou;
  • O mercado bilionário dos cinemas e indústria do entretenimento como um todo está parado, suspenso;
  • A Disney fechou seus parques, Las Vegas fechou os cassinos;
  • Países da Europa estão em lockdown e em locais há centenas de mortos por dia;
  • Bolsas em todo mundo estão no vermelho, em queda, inclusive na China, onde a pandemia está voltando.

Quantos mais precisam morrer no Brasil para este desnaturado perceber que a situação é séria? A Justiça, aliás, ordenou que o hospital que fez seus exames divulgasse os nomes dos resultados positivos. De maneira surreal, dois dos 17 nomes foram considerados confidenciais.

Há quem diga que estes nomes são de Bolsonaro e sua esposa, Michelle. O que não há dúvidas é de que mais de 20 pessoas de sua comitiva, que foi até os EUA se encontrar com Trump, testaram positivo. E que o motorista do presidente foi internado no hospital, com problemas respiratórios.

Mas o problema é econômico. O irresponsável não está disposto a colocar a mão no bolso para sustentar a população (e não só bancos e empresários) neste momento difícil. O que ele quer, é que tudo volte ao normal, apostando que as mortes não justificariam esta pausa no comércio.

Está começando a ficar difícil lidar com o presidente e mesmo quem ainda consegue apoiá-lo diante disso tudo. Tratou-se então de uma reparação histórica. Na verdade, uma chance de mudar o curso da história: vossa excelência precisa calar a boca ou se retirar. E deixar que alguém capaz, com mais que 38 neurônios no cérebro, sente na cabine de piloto. Com ele, não dá mais.

Lógica óbvia que infelizmente precisa ser repetida

Se tudo der certo, e olhe lá, a economia sofre um baque significativo. Governos precisam colocar a mão nos bolsos, se endividar e auxiliar a população, que foi devidamente orientada a ficar em suas casas para impedir o alastro da doença. Afinal, há jeito para tudo, só não para morte.

A lógica é simples: o novo coronavírus se espalha rápido e se mostrou nocivo e até mesmo letal em grupos de risco, como pessoas com mais de 60 anos, hipertensos, diabéticos ou portadores de doença autoimune.

Pessoas fora deste grupo não estão necessariamente fora de perigo: muitos sofrem uma pneumonia forte, precisam de respiração mecânica e com isso ocupam leitos de CTI – que possuem um número limitado.

Se muitos ao mesmo tempo precisaram ao mesmo tempo de internamento, não haverá vagas para todos. E não só para os enfermos com o Covid-19, afinal há outras situações como acidentes de trânsitos e inúmeras outras condições médicas.

Portanto, para não sobrecarregar o sistema de saúde e impedir que morram, por dia, mais de 600 ou 900 pessoas, como na Espanha ou Itália, precisamos ficar em casa. Sair o mínimo possível. Lavar as mãos. Não ouvir Bolsonaro. Retirar ele da presidência.

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