12 de agosto de 2020Informação, independência e credibilidade
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Deus nos acuda! Quem sobrevivará à caneta de Bolsonaro?

Não é de hoje que o presidente Jair Bolsonaro e o seu ministro da Saúde destoam; não falam mais a mesma linguagem. O vírus que tem causado devastação por onde passa, e que avança no Brasil, afetou de maneira mortal a relação entre comandante e comandado e a convivência de ambos no mesmo governo tornou-se visivelmente insustentável.

Em seu trabalho de combate ao avanço da Covid-19 no Brasil (um bom trabalho, do ponto de vista técnico, diga-se de passagem), o ministro Luiz Henrique Mandetta tem feito manobras mirabolantes para se manter na mesma rota da ordem mundial, sem trombar com o ‘rei’, que de maneira insana, contra toda sinalização, insiste em permanecer na contramão das medidas técnicas adotadas em todo o planeta.

Quase que diariamente, as contradições se repetem dentro do governo, como num samba de crioulo doido que se divide entre a ordem imperiosa mundial, que manda ficar em casa, e a contraordem impetuosa do presidente, que manda sair de casa, fazendo eco aos apelos do poder econômico.

Entre a preservação da vida e a lógica da economia, a caneta presidencial já está no tinteiro, e o recado que vem sendo dado há vários dias, ganhou força nas palavras do próprio presidente, neste domingo: “a caneta é minha”, numa clara alusão ao preço que será cobrado dos auxiliares que, nas suas palavras “viraram estrela”. E essa ‘estrela’ tem nome de Mandetta.

A reunião no Palácio do Planalto, entre o Presidente e sua equipe ministerial acontece neste final de tarde. E como dificilmente -acredito eu – o ministro Mandetta vai obedecer à tendência palaciana de acabar com o isolamento social, a expectativa é de que, nesse embate entre a lógica econômica e a preservação da vida, prevaleça a consciência profissional do médico que ele é. A não ser que Bolsonaro queira continuar o desgaste de parecer na contramão do seu próprio governo. Não creio. É praticamente certo o ato de demissão. E isso significa tirar o bom senso do caminho, numa guerra em que a estratégia mais lúcida é a prevenção; significa liberar a flexibilização perigosa do isolamento social, fundamental no combate ao coronavírus.

E assim, seremos todos vítimas da mesma caneta.

Mandetta não se enquadra num perfil que se pode chamar de progressista; nas políticas sociais ele se alinha ao lado da iniciativa privada; defendeu a privatização do SUS, mas nessa questão de combate ao coronavírus portou-se como técnico, e acabou vestindo, literalmente a camisa – inclusive do SUS. Dentro do governo que temos, não tenho o menor problema em dizer que estaremos  “pior sem ele”.

Quem vai substituí-lo? Não demoraremos a saber. Provavelmente o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que já foi ministro da Cidadania e tem mantido, acima de tudo – inclusive da sua formação médica – o alinhamento à posição do Presidente em favor da flexibilização do isolamento social, predominando a economia sobre a preservação da vida.

É o tal do ‘salve-se quem puder’, valendo entre eles, mas, sobretudo, entre nós.

E que Deus nos acuda!

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