8 de agosto de 2020Informação, independência e credibilidade
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Hardcore XXI: a resistência continua…

Tim Maia já dizia que o Brasil era estranho, pois prostitutas gozam, cafetões são ciumentos e os pobres são de direita.

Para nosso azar, o eterno “síndico” partiu cedo, nos privando de suas performances únicas e de seu vozeirão.

Por outro lado, foi “sorte” dele não estar vivo para testemunhar o surgimento de espécies asquerosas com os tais “roqueiros conservadores”.

Eita, gente patética! Os caras ouvem bandas como o Pink Floyd e acham que eles defendem bandeiras da direita como o darwinismo social, a prevalência do poder econômico sobre a dignidade humana, a exclusão social das minorias?

Estou na casa dos 40, me dá desgosto ver alguns amigos que saíam à noite em bandos para tomar vinho na praça, hoje, transformados em “tiozões” conservadores, sem consciência política e de classe, apesar de termos crescido envoltos por um estilo marcado pela rebeldia e o estímulo ao pensar, contestar. Roqueiros têm que incomodar, não baixarem a cabeça para o tal do “sistema”.

Bem, mas indo ao que interessa, desafiei meu jovem amigo há quase uma década, Thiago Eloi, a contribuir com um artigo para este blog. Já aviso que o cidadão, apesar da pouca idade, é brilhante.

O assunto que ele escolheu me inquieta faz tempo. Dia desses, por exemplo, vi como um de meus ídolos desde a adolescência, Sebastian Bach (ex-Skid Row), sofre ataques por ter criticado por Trump pelo seu desapreço à ciência no combate à pandemia de Covid-19.

Por outro lado, aumentou minha esperança ao ver que ele ganhou mais de 400 mil seguidores em uma semana por defender o certo.

Não vou alongar a conversa, apenas leiam a mensagem deste meu querido amigo, com quem concordo em cada vírgula escrita.

Hardcore XXI: a resistência continua…

Por Thiago Eloi

“A função do artista é violentar”, dizia Glauber Rocha. Longe de mim querer traduzir, de forma precisa, o que ele quis dizer com isso. Mas lembro dessa frase sempre que me deparo com o atual cenário do rock (em especial o brasileiro).

O leitor há de concordar que é comum, hoje em dia, ver manifestações retrógradas dentre aqueles que jamais esperaríamos: os tais “rockeiros”. Mas nessa tribo, ironicamente repleta com homens de óculos escuros e discursos moralizantes, ainda podemos (felizmente!), encontrar os que preservam suas raízes subversivas. Falo especificamente do hardcore, cena musical surgida internacionalmente através da “segunda onda do punk”, no final da década de 1970.

Eu tinha uns 15 anos quando um amigo de Catu, na Bahia, me apresentou algumas bandas desse subgênero. Me amarrei no estilo. Dentre as bandas brasileiras que ele me apresentou estavam Self Conviction, No Violence, Point of No Return, Ratos de Porão e outras. Bem, o que mais me chamou atenção, além dos gritos que me animavam, foram as letras. Todas elas com um espírito jovem e combativo. Lembro quando ouvi Reagan’s In (1981), do Wasted Youth, pela primeira vez. Adorei a capa: Ronald Reagan com uma suástica na testa. Sim, aquele mesmo Reagan que visitou o cemitério de Kolmeshöhe, na Alemanha, e homenageou soldados da Waffen-SS (organização nazista).

Fuck Authority é, para mim, a melhor faixa do disco. Daquele jeito: mensagem curta e grossa. “Stand up for your rights; fuck authority!”, exclamavam. Pois é, os caras cagavam em cima do conservadorismo americano em plena era Reagan! Dá pra imaginar, maluco?!

Também ficava admirado com letras de bandas daqui do Brasil. Minha favorita se chama Letargia, da banda paulista Point of No Return:

Morrendo lentamente conforme nos
Tornamos indiferentes.
A cada esquina, o choque de opostos.
Privação, ostentação.
O vazio invade, domina, se instala.
Extingue nossa motivação.
Um estado absurdo passa a ser comum.
A violência, vulgarizada.
O cego, o surdo, o mudo,
Sintetizados em nós.
Alimentados pelo egoísmo,
A dor alheia perde valor.

A INDIFERENÇA É A MÁSCARA COVARDE DA INJUSTIÇA!

O início da ação é a indignação.
Seu papel não é assistir.
Você pode reagir… E agir!

RECUSE a letargia que invade o seu ser.
A resistência começa em você.
Seja um agente de sua própria história.
“Esperar não é saber”.

Hoje a resistência no rock, ainda que pequena, continua no Brasil em combate ao fascismo. “Hardcore contra o fascismo” é, inclusive, o nome de um projeto que promove atos em São Paulo.

Certa vez Latuff disse numa entrevista que “é preciso ter na arte a cunha que vai partir ao meio o conformismo, o reacionarismo”.

Ele está certo. Acho que é isso que Glauber Rocha quis dizer.

Evento antifascista, realizado ano passado no Largo da Batata, em São Paulo

One Comment

  • Avatar Flávio Doria

    Excelente Wagner . A passividade e os pensamentos arcaicos estão infectados na sociedade atual.

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