4 de junho de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Ignorando pandemia, Bolsonaro passa a boicotar o ministro da Saúde

Revista Veja relata bronca de Bolsonaro por Luiz Henrique Mandetta auxiliar “São Paulo de Doria”

Basta um ministro se destacar, mesmo que positivamente, que Jair Bolsonaro inicia a perseguição. E nem mesmo Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, ficou à salvo.

Ele destoa das ações irresponsáveis do presidente e seus seguidores levando a sério a pandemia do novo coronavírus. Entende a gravidade da situação, o possível impacto no sistema de saúde público e como é importante a importância da quarentena.

Enquanto isso, Bolsonaro, que deveria se isolar e evitar contato após entrar em contato com infectados, resolveu se juntar aos manifestantes que pediam o fechamento do Congresso.

Contradito por seu próprio ministro da Saúde, o presidente agora sente-se traído ao ver o auxiliar atuando em parceria com o governador de São Paulo, João Doria, na formação de um plano de contingência frente o avanço do coronavírus no país. E por isso, foi duramente criticado.

Segundo a revista Veja, o presidente ligou diversas fezes para seu ministro. “O Mandetta, o que você está fazendo aí ao lado desse Doria”, teria dito Bolsonaro ao ministro, segundo relato de uma testemunha do entrevero.

Médico por formação, Mandetta, pessoalmente mexido com a emergência global, tentou explicar ao presidente o sentido de atuação republicana. “Presidente, como ministro da Saúde, estou apenas cumprindo com minhas obrigações”, disse Mandetta a Bolsonaro, segundo três fontes relataram ao Radar.

Bolsonaro não aceitou as explicações. Sem poder demitir o auxiliar, reconhecidamente elogiado no momento pelo trabalho na luta contra a crise, o presidente passou a atuar nos bastidores para minar a operação montada pelo seu próprio governo.

Claro, isso aconteceu quando Bolsonaro quebrou a própria quarentena para buscar o contato físico com um grupo que se aglomerava na frente do Palácio do Planalto, mas houve outros lances nada elegantes.

Criticado por diferentes autoridades por estimular os protestos do domingo, colocando a saúde de milhares em risco, Bolsonaro humilhou a equipe de Mandetta ao fazer pouco caso do plano de prevenção bolado por um time de técnicos que vem trabalhando durante incansáveis horas para driblar dificuldades estruturais do sistema de modo a evitar um apagão na saúde ante a explosão de casos de coronavírus.

Aliados do ministro da Saúde perceberam o abatimento de Mandetta diante da sabotagem explícita do presidente da República. “Ele não gostou, ficou magoado. Mas o sentimento de médico está falando mais alto”, diz um aliado.

Não foi jogo combinado, mas a atuação de Ronaldo Caiado, governador de Goiás e amigo de Mandetta dos tempos de mandato na Câmara dos Deputados, reprovando duramente a insanidade bolsonarista nas ruas, acabou servindo de resposta ao Planalto. Mandetta, em entrevista no domingo, também deixaria evidente sua posição contrária ao comportamento do presidente.

Rio e São Paulo

Bolsonaro vinha usando o governo para asfixiar Wilson Witzel no Rio. Ele proibiu seus ministros de receberem o governador e até segurou o fluxo de repasses de verbas aos órgãos federais no estado.

Tudo em nome de uma guerra familiar que envolve seus filhos e investigações policiais. Pelo visto, a ideia era usar a crise do coronavírus para fazer o mesmo com Doria em São Paulo. Mandetta não deixou.

Considerado um quadro técnico do governo, Mandetta caiu em desgraça por flertar com a mente paranoica do presidente. Ao atuar em parceria com o governo de São Paulo e do Rio, redutos de adversários de Bolsonaro, passou a ser visto como traidor.

Os dois principais estados do país, apesar de governados por desafetos de Bolsonaro, são também o epicentro da contaminação de coronavírus.

Nada mais natural que o ministro da Saúde atuasse nessas áreas. Para Bolsonaro, não. Não interessam as consequências da pandemia, os inimigos não devem ser socorridos pelo governo. E ponto.

O esforço de Mandetta em tratar a pandemia de forma técnica, não política, foi reconhecido por Doria: “O ministro Mandetta atua de forma correta, diligente e tem conduzido de modo republicano o trabalho em São Paulo”.

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