5 de agosto de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Ministério da Defesa teme França e vê guerra pela Amazônia nos próximos 20 anos

Texto de 45 páginas traz considerações geopolíticas realistas, além de hipóteses delirantes

O Ministério da Defesa colheu 500 entrevistas em 11 reuniões no segundo semestre de 2019, a França, com sua renovada defesa da internacionalização da Amazônia, tomou o centro das preocupações da elite militar brasileira como principal fonte de ameaça estratégica para o país nos próximos 20 anos.

Trata-se da minuta sigilosa “Cenários de Defesa 2040”. Ela ajuda a embasar a revisão em curso da Estratégia Nacional de Defesa, a ser enviada ao Congresso até junho. Suas visões poderão ou não ser acatadas pela pasta, mas traduzem um sentimento médio entre o oficialato. As reuniões ocorreram em comandos militares, organizadas pela Escola Superior de Guerra.

A pasta diz que falou com pessoas do “âmbito interno e externo”. Segundo envolvidos no processo, militares são a maioria absoluta dos ouvidos.

Num registro mais concreto, a questão dos crimes transnacionais ligados ao tráfico de drogas está presente nas preocupações, assim como a militarização do Atlântico Sul.

O texto de 45 páginas traz considerações geopolíticas realistas e hipóteses delirantes. Ali, há a previsão da instalação de bases americanas no Brasil, guerras e até o ataque com um coronavírus contra o Rock in Rio.

Os cenários gerais são quatro: alinhamento automático do Brasil aos Estados Unidos com ou sem restrições orçamentárias para defesa, e relacionamento global do país, também em versões verbas fartas ou exíguas.

Amazônia

A floresta está no coração do pensamento militar local. O livro “Aspectos Geográficos Sul-Americanos” (1931), do capitão do Exército Mário Travassos (1891-1973), consolidou a geopolítica do “integrar para não entregar” dos quartéis.

Segundo um dos cenários descritos, em 2035 Paris “formalizou pedido de intervenção das Nações Unidas na Região Ianomâmi, anunciando o seu irrestrito apoio ao movimento de emancipação daquele povo indígena” e, dois anos depois, “mobilizou um grande efetivo suas forças armadas, posicionando-os na Guiana Francesa”.

O texto se furta a dizer o que aconteceria se os países fossem às vias de fato, contudo. Nos anos 1960, os países se estranharam numa questão pesqueira, a chamada Guerra da Lagosta.

A minuta ignora que a França é a principal parceira militar do Brasil, com quem tem um amplo acordo para produção de submarinos e helicópteros.

O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da França Emmanuel Macron

Venezuela

O atual espectro da região, a ditadura chavista da Venezuela, recebe tratamento diverso. Em uma simulação realista, o país aproveita os mísseis balísticos que recebeu da Rússia e da China e invade a vizinha República da Guiana (antiga Guiana Britânica) atrás de territórios que disputa.

Já em outros cenários, há uma pacificação da crise venezuelana, com ou sem os brasileiros na equação. A índole pacífica do Brasil, que não se envolve em conflitos na região desde a Guerra do Paraguai (1865-70), só é mantida em um dos quatro cenários, aquele no qual falta orçamento e o país busca equidistância dos EUA e da China.

Nos demais, além dos embates com franceses e venezuelanos, é antevista uma intervenção militar brasileira em Santa Cruz de la Sierra após o governo da Bolívia expulsar fazendeiros brasileiros.

Minuta

No Brasil, historicamente o Exército era o responsável por esse tipo de estudo. É a primeira vez que o Ministério da Defesa elabora algo nesta linha. Em 2017, publicou cenários com afirmações gerais e abordagem mais científica.

A minuta não especifica métodos. “O arranjo metodológico para composição de um texto flexível utilizou técnicas e métodos qualitativos”, disse o ministério, em nota.

 

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