7 de agosto de 2020Informação, independência e credibilidade
Política

Moro, que não é santo, fez delação premiada contra Bolsonaro e ligou holofotes para 2022

Ex-juiz da Lava Jato vaza conversa de outro presidente, enfraquece (ainda mais) um governo e encaminha capital político para próximas eleições

Ao contrário do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que, apesar do ganho de capital político saiu sem desabafar muito, após perder uma batalha contra os negadores da ciência no governo Bolsonaro, enquanto tentava mostrar a seriedade da pandemia e a importância do distanciamento social, o agora ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, caiu atirando.

Descontente com o presidente rasgando a carta-branca que havia prometido, com intervenções e pedidos de troca na PF (Polícia Federal, o ex-juiz da Lava Jato não só se demitiu como, resolveu entregar alguns crimes cometidos por Jair Bolsonaro, em discurso de 45 minutos.

Além de garantir que Bolsonaro fazia sim intervenções na PF, cobrando relatórios de inquéritos, Moro afirmou que não assinou no Diário Oficial a saída de Valeixo, a quem tinha indicado, na diretoria-geral da PF. Não só isso: ele nem mesmo sabia da demissão. Ou seja: o presidente mentiu (novamente) e foi além ao falsificar o Diário Oficial – que, horas depois, fora retificado, agora sem assinatura de Moro.

Maurício Valeixo, comandante da PF, era homem de confiança de Moro, mas Bolsonaro insistiu em exonerá-lo

O que parecia estar em mão, segundo Moro, era a ‘honra’ da instituição da Polícia Federal. Essa, está cada vez mais próximo do encalço de Carlos e Eduardo Bolsonaro, apontados como responsáveis pelo Gabinete do Ódio e propagadores de fake news institucionais. E como houve até incentivo a atos que pedem AI-5, isso traria problemas ao presidente.

Mas não era só isso: basta ver as reações à saída do ex-juiz dos que são bolsonaristas, ou dos que algum dia foram, dentre parlamentares, empresários ou mesmo cidadãos comuns. Teve quem nem queria acreditar na saída. Moro, herói por ter prendido Lula e acabado com a corrupção no PT, enquanto capitaneava a Lava Jato, era intocável. E sua união com Bolsonaro parecia perfeito. Mas houve o divórcio:

“Eu sempre abri o coração para ele. Já duvido de que ele tenha sempre aberto o coração para mim”. Jair Bolsonaro, presidente, que literalmente disse isso.

Neste divórcio, a divisão de bens será litigiosa. E nada é mais valoroso entre os personagens dessa novela do que o capital político, do que as eleições de 2022. Se houve BolsoDoria em 2018, por que não MoroDoria? O governador Wilson Witzel, do RJ, já convidou o ex-juiz para seu governo de forma imediata.

Há ainda a escalada de poder mais provável na vida de alguém que deixou 22 anos de magistratura para entrar na política: a presidência do Brasil. Moro, mais popular que Bolsonaro, tem bala na agulha para isso. Ainda mais com a base do atual presidente rachada e com Jair chorando as pitangas, durante seu discurso que teve igualmente 45 minutos, e atirando para tudo o que é lado. Até mesmo no próprio pé.

Infelizmente, perdemos todo: o brasileiro não aprende nunca e sempre resolve ter heróis na política. E seja ele de esquerda ou de direita, especialmente aqueles mais nos dois extremos, a nação sempre quebra a cara.

No caso de moro, por exemplo: seja ele fortalecendo uma chapa ou mesmo liderando uma, é importante lembrar que se o diretor-chefe da PF não tivesse saído, nada teria sido revelado. Moro ficou calado durante todo esse tempo.

E não só isso: pela segunda vez, o Jornal Nacional exibiu mensagens presidenciais vazadas por ele mesmo. Moro não é santo. Moro não é herói. Logo, cuidado com a empolgação pelo Super Moro em 2022.

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