30 de março de 2020Informação, independência e credibilidade
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Música, maestro! O legado de uma vida dedicada às partituras e notas musicais

Manoel Alves tornou-se um dos mais importantes batalhadores pela preservação da cultura em Marechal Deodoro

Sábado, 15 de fevereiro, início de tarde, o estandarte vermelho e os bonecos gigantes anunciavam a chegada do bloco Pinto da Madrugada. Avenida lotada, calor de abafar; eu e milhares de pessoas estávamos ali para ver o bloco que se tornou a maior referência da prévia carnavalesca de Maceió.

Mas foi uma cena, em especial, que me deixou emocionada: Na ala de frente, o primeiro grupo de músicos tentava vencer, com a técnica do sopro, do baque e da harmonia dos seus instrumentos, os microfones de um trio elétrico que acabara de passar. E conseguiram. O som do frevo se impôs na multidão, com a força e o orgulho de quem sabe o que faz. No alto, um pequeno estandarte identificava: Orquestra Professor Manoel Alves de França.

Não contive o arrepio na alma e a lágrima de emoção. Acabara de saber da morte do grande maestro que transformou em notas musicais a história de muitos destinos; de muitas gerações em Marechal Deodoro, formando cidadãos a partir da música.

Reprodução

Pensei na dedicação daquele homem ao ofício que abraçou por toda a sua vida e no paradoxo daquele momento, na cabeça daqueles jovens músicos que tanto – como tantos outros – admiravam o maestro. Homenagem maior não poderia haver, por mais que estivesse doendo na alma de cada um.

Naquele exato momento, enquanto o corpo do maestro de 95 anos – 80 dedicados à musica – estava sendo velado na sede da Sociedade Musical Professor Manoel Alves, no bairro de Taperaguá (Marechal Deodoro) onde ele vivia, os alunos da escola que ele fundou faziam bonito na avenida, mostrando com orgulho e muita energia, o legado que o mestre deixou.

Tantas vezes eu o vi passar regendo seus alunos, subindo e descendo as ladeiras da velha capital, num exercício cansativo, até mesmo quando o envelhecimento físico já prejudicava a sua audição e acentuava um problema em uma das pernas, que o fazia manco. Admirava a força e a dedicação daquele velho músico, que parecia, ao mesmo tempo, tão frágil e tão forte em sua determinação.

Certa vez, aos 80 anos, em reposta a um prefeito que sugeriu que ele estaria velho demais para manter a Filarmônica, Manoel Alves respondeu com maestria: quem trabalha com música não envelhece, porque é movido pelo amor e pela dedicação ao que faz.

Ontem, ele deixou mais uma lição: Quem forma tantas gerações de músicos, não morre; perpetua-se em notas musicais.

O bloco passa e a vida segue. Quem sabe, no próximo ano, entre os bonecos gigantes que retratam os grandes carnavalescos da história do Pinto da Madrugada, esteja o do maestro Manoel Alves tocando clarinete e regendo a sua orquestra no ritmo de frevo!

Que assim seja!

 

Pequeno histórico

Marechal Deodoro é terra de músicos – daqueles que se fazem por formação; um verdadeiro celeiro fomentado por grandes maestros e professores responsáveis por transmitir essa arte, de geração a geração. O nome do maestro Manoel Alves de França é referência unânime de um homem que dedicou sua vida à missão de ensinar e difundir a cultura filarmônica, profissionalizando músicos e facilitando o ingresso e ascensão na carreira em várias instituições militares por todo o país.

Começou aos 14 anos, como aluno do maestro Olímpio Galvão, na Sociedade Musical Santa Cecília. Especializou-se em saxofone e clarinete e logo se tornou professor. Em 1966, recebeu a missão – que levou pelo resto da vida – de criar e organizar a Banda Musical do Sesi, que a partir de 2002 passou a se chamar Filarmônica Professor Manoel Alves, uma justa homenagem à dedicação com que abraçou a missão de conduzir a banda e a escola musical.

A orquestra encontrou seu lugar entre as melhores. Mas enfrentou grandes dificuldades, todas contornadas pelo maestro. Inicialmente o Sesi garantia os instrumentos, mas havia outros custos que não eram cobertos. Em 94, na gestão do prefeito Múcio Amorim, as filarmônicas da cidade passaram a receber uma ajuda de dois salários mínimos mensais – estava garantida a compra de material de consumo, palhetas, embocaduras, partituras etc. Foi municipalizada, mas pouco tempo depois, em uma das gestões de Danilo Dâmaso, perdeu a sede. O prefeito que achava o maestro velho demais para manter a Filarmônica, despejou a filarmônica e quis acabar com a banda.

O maestro reagiu e resistiu. Levou a escola para dentro de casa. A partir de 2002, as aulas e ensaios da Sociedade Filarmônica Professor Manoel Alves foram acomodadas numa pequena residência, no bairro de Taperaguá, onde ele morava. E os parcos recursos que entravam – tocatas, doações, contribuição municipal, até dinheiro de rifas e outros eventos – passaram a ser reservados, prioritariamente, para uma meta ousada do professor: construir uma sede própria. Dez anos depois, em 2012, ele conseguiu comprar o terreno, e em 2013, teve o prazer de ver iniciada a construção.  

Este passou a ser o grande sonho do maestro, que beirando os 90 anos,  já com problemas de saúde e já tendo passado a batuta para o filho, Altamiro Alves, hoje regente e instrutor da Filarmônica, manteve viva a chama até o fim. Que bom que ele conseguiu ver esse sonho realizado. A nova sede foi inaugurada no dia do seu aniversário, em 2016, com a ajuda do empresário Mauro Vasconcelos, que ao visitar o bairro onde nasceu seu avô, Álvaro Otacílio, conheceu também o maestro Manoel Alves e encantou-se com sua história e sua luta em defesa da Filarmônica. Assumiu com ele um compromisso e investiu na construção da sede.

“Foi uma grande homenagem ao meu pai. Manoel Alves é um grande músico e formou muitos músicos deodorenses que hoje tocam em bandas das Forças Armadas em vários estados do nosso pais”, destacou Altamiro Alves, filho de ‘Seu Manoel’.

E muitos desses músicos vieram de Brasília, Minas Gerais e de outros estados, no último sábado, demonstrar sua gratidão e prestar a última homenagem ao mestre, com todo carinho.

Professor Manoel Alves morreu, provavelmente ouvindo o som dos clarinetes em ritmo de carnaval, e repousa, certamente, na paz de quem cumpriu bem a sua missão.

A história segue… E que a música continue tocando almas e promovendo cidadania.

12 Comments

  • Avatar sunny alves

    Texto lindo!!emocionante….
    Não conheci,mas sua bela história relatada,me fez entender a sua importância na música e cultura pra Alagoas,deixou um legado impar.Todas homenagens bem merecidas.Descanse em paz Sr Manuel👋👋👋👋

  • Avatar Debora Macedo

    Belíssima história, regada de muito AMOR, DETERMINAÇÃO e RESPEITO ao próximo.
    A esse homem que infelizmente não tive o prazer de conhece-lo pessoalmente, apresento aos seus familiares minhas reverências.

  • Avatar Jarbas Mauricio Akvea

    O Professor Manoel Alves, deixa um legado extremamente importante para a Cultura de Marechal, Alagoas e do Brasil, ele foi de fato Regente, Professor e sobretudo um Educador, com seus exemplos de dedicação, pontualidade, competência, ética e respeito aos outros, ele foi diretamente responsável pela formação de cidadãos com consciência de cidadania e de caráter. Esperamos que os gestores reflitam a partir lamentavelmente do falecimento físico do seu Manoel Alves, por que a suas obras e o seu trabalho sempre vai ficar vivo, então os gestores façam algo para que nunca esqueçamos não só deste grande personagem mais de tantos outros como; José Ramos, seu Hié, Benedito da Jovi, Pedro da Riqueta, Ovídio, seu Celso etc. fica está reflexão .
    Jarbas Mauricio Alves
    Primo e aluno.

  • Fátima Almeida Fátima Almeida

    Grata pela leitura, Altamira. Pela sua história de contribuição à cultura, seu avô merece muuito mais que uma simples nota de falecimento.

  • Avatar Ednaldo Alves do Nascimento

    Sabemos que é um fato lamentável para todos nós maestros, músicos e todos que fazem a nossa cultura. Perdemos um ícone da filarmônicas de Marechal Deodoro e como também sou hoje um regente, e tenho a grata satisfação de dizer que sou oriundo de uma filarmônica, sei da responsabilidade que temos. E seu Manoel Alves foi, é e sempre sera um exemplo a ser seguido, como foi dito no texto acima citado. Partiu, mas deixa o seu legado, digno de um Homem que acredita no seu potencial. Que o nosso bom Deus o receba em sua mansão celestial.

    Maestro Bacalhau, Delmiro Gouveia Al.

  • Avatar Altamira

    Emocionante esse texto… Eu como neta agradeço pelas belas palavras , me emocionei ao ler o texto.. muito obrigada … sensacional

  • Avatar Carlos Alberto Fernandes Ferreira

    Que bela história de vida e amor dedicada à música e ao próximo, parabéns maestro, você será exemplo para muitos , nesse Brasil……

  • Avatar Carlos

    Muito difícil manter uma banda de música sem apoio dos politicos que poderiam atentar para este exemplo do maestro Manoel. Quase todas as bandas música no Brasil passam por dificuldades por nao ter apoio das secretarias de cultura. Parabéns ao maestro que Deus o guarde no céu.

  • Avatar José Rubens dos Santos

    História bonita desse homem, lembro dele vindo de taparaguá até a rua da Matriz onde era a escola do SESI para ensinar música. Quando passava parecia uma Mãe amorosa acompanhado de vários meninos que ele arebanhava para ensinar música muitos deles hoje vive bem por ter seguido o GRANDE MONOEL ALVES DE FRANÇA.

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