24 de maio de 2020Informação, independência e credibilidade
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Não é só teimosia: Aglomerações exigem estratégias mais eficientes

Pagamentos de programas sociais sociais e ações de solidariedade quebraram feio as regras de isolamento social esta semana

Fim de um mês, início de outro, contas a pagar, dinheiro a receber e a panela vazia na casa de milhares de pessoas que há 15 dias não podem sair para trabalhar, diante da ameaça de um inimigo invisível que se alastra deixando um rastro de morte pelo mundo inteiro.

Está difícil para todos, mas estou falando, especificamente de uma faixa mais pobre da população; de pessoas idosas, trabalhadores informais que de uma hora para outra ficaram sem renda; de uma legião de famílias que dependem dos programas sociais do governo e das ações de solidariedade que aparecem aqui ou ali.

Para estes, não há alternativa senão encarar a fila do banco e da casa lotérica para receber o benefício ou se arriscar na fila da distribuição da cesta-básica promovida por instituições de caridade, como aquela que dias atrás aglomerou uma enorme multidão na região do Dique Estrada para receber mantimentos. Com todo respeito à ação, faltou organização, do mesmo modo que ocorreu também nos primeiros dias de vacinação contra a gripe H1N1 – depois organizada adequadamente.

Fila na casa lotérica em Marechal Deodoro

Esta semana foi especialmente difícil no cumprimento das medidas de isolamento social necessárias à contenção do avanço do vírus. Pagamento do INSS, bolsa-família, vacinação, liberação de salários, cota do FGTS, do PIS…

Imagina tudo isso de uma vez, para uma imensa camada da população cujas necessidades limites já não podem esperar. Gente que não domina o traquejo das operações bancárias via internet e até mesmo em caixas eletrônicos, e não tem escolha senão ir direto ao caixa para sacar o dinheiro. Elas dependem do atendimento presencial, que foi encurtado para quatro horas diárias, gerando muito mais filas e aglomerações de usuários nas agências e, muito mais do lado de fora, enfrentando sol, chuva e o grave risco de contaminação pelo vírus da Covid-19.

Marcação de distância na calçada da caixa

O perigo ronda nossas agencias bancarias e seus correspondentes, e as aglomerações que se formaram esta semana, em frente a essas instituições são é o retrato fiel desse risco.  Em meio ao alvoroço e à agonia de querer ir embora dali, o indicativo de afastamento seguro, de 1,5m vai encurtando e se tornando nada. Vira corpo a corpo, literalmente, potencializando os riscos de contaminação. E a tendência é piorar, se não foram adotadas medidas mais enérgicas e estratégicas para o pagamento, nos próximos dias, do auxílio emergencial de R$ 600,00 destinado a 54 milhões de pessoas em todo o país.

Não tem como evitar, mas tem como preparar melhor o ambiente de atendimento. Agendamento com hora marcada, fracionamento mais amplo do calendário de pagamento, entrega de fichas talvez fossem alternativas viáveis. É preciso ajustar o planejamento, investir em organização e fiscalizar com mais rigidez o cumprimento das normas de distanciamento social. Nem que para isso tenha que mobilizar foças policiais, guarda municipal ou quem quer que seja.

Existem decretos, orientações do Ministério Público, notas técnicas, normativo; algumas medidas foram adotadas pelos bancos e lotéricas, como a marcação de espaços no piso, até mesmo nas calçadas das agências, delimitando a distância segura na fila de atendimento. Em alguns estabelecimentos, o acesso de clientes é limitado a 5 ou 10 pessoas por vez, mas aqueles que ficam na calçada, na porta do bando esperando, é difícil controlar sem a força firme do poder público fazendo valer as regras.

E é preciso fazer valer!

Lembrando sempre que a maioria não está ali por teimosia, mas pela necessidade extrema de botar comida na mesa. Porque o dinheiro que ele precisa para comprar seus remédios, pagar conta da feira na bodega da esquina, está guardado naquele prédio. E ao saírem de casa levam consigo o dilema inevitável de correr o risco e se expor ao inimigo invisível.

Na verdade, o que a maioria gostaria mesmo, era de não precisar sair, de se proteger e seguir as recomendações das organizações mundiais de saúde, enquadrando-se, com ou sem decreto, na ordem universal do momento:

Ficaemcasa!

 

#aglomeração, #coronavírus #contaminação

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