24 de maio de 2020Informação, independência e credibilidade
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O decreto requentado e a sensação de que a voz da economia fez eco

Os números de contaminação em alta, alertam que não é hora de vacilo no combate ao coronavírus

O novo decreto do governo estadual sobre as medidas de combate ao coronavírus saiu do forno, ontem, com a cara de requentado e a sensação de que a pressão econômica ganha espaço, numa disputa em que a saúde exige prioridade – por questões imperiosas, de vida e morte. E a morte vem ganhando terreno, amparada na teimosia da quebra do isolamento social. Os hospitais beiram o esgotamento de sua capacidade de lotação, enquanto os cemitérios trabalham (necessariamente) na ampliação de vagas.

Considero que o governo de Alagoas vem fazendo  um bom trabalho no combate ao coronavírus desde o início. Mas num momento em que a escalada dos números mostra 4.916 casos confirmados e 262 mortes registradas, segundo dados desta quinta-feira (21); e a doença se faz presente em quase 90% dos 102 municípios, esperava-se que as regras de isolamento endurecessem; falava-se até em lockdown.

No dia 1º de maio, Alagoas registrava 1.045 casos confirmados, com 47 mortes por Covid-19. Em 21 dias, o número de pessoas que testaram positivo é quase cinco vezes maior, e o número de mortes já é quase seis vezes maior do que o registrado no começo do mês.

Não dá pra relaxar. O bom senso manda fechar o cerco. Mas o governo surpreendeu; manteve tudo como era antes no quartel de Abrantes: com os mesmos serviços ‘essenciais’ funcionando (vou comentar alguns deles) e as mesmas regras e restrições, apenas tornando mais rígida a abordagem da fiscalização nas regiões metropolitanas de Maceió e Arapiraca. Vale uma ressalva sobre essa distinção: Imagens e relatos dão a impressão de que é exatamente nas regiões interioranas mais distantes, onde as pessoas mais descumprem as regras de isolamento social e uso de máscaras.

Sobre ‘essenciais’

Por ser bem similar ao anterior, no novo decreto, valendo a partir de hoje, permanecem algumas situações que de certa forma (contando com a falta de bom senso das pessoas) favorecem a quebra do isolamento social. Serviços ‘essenciais’ que não o são tanto assim, considerando a situação de pandemia, são uma porta aberta para isso.

Nunca entendi, por exemplo, a necessidade ‘essencial’ de abrir papelarias, se na maioria dos supermercados (que necessariamente permanecem abertos) tem seções destinadas a isso! E o que pode fazer o ‘isolado’ ir a uma banca de revista, em meio à pandemia, se pode ter todas as noticias pela internet? E as livrarias? Por mais que seja saudável o hábito de ler, será que alguém vai morrer se não comprar um livro nesse período? Claro que não! Mas pode morrer se sair de casa pra comprá-lo.

O funcionamento desses estabelecimentos só aumenta o risco para funcionários que são obrigados a ir trabalhar, às vezes pra fazer nada; e para atrair alguns imprudentes que só querem uma brechinha pra sair. Vamos às lojas de tecidos: compreensível a liberação, para favorecer a confecção de máscaras. Porém, o que mais se vê no Centro são clientes passeando com pacotes de tudo que é produto (edredons, colchas, travesseiros, artigos decorativos…).

É o que acontece também nos varejistas de bebidas, que continuam abertos como serviços essenciais. O que menos se vende nesses locais é água mineral. Até porque, este produto geralmente é comprado a delivery, desde sempre, não só em tempos de pandemia. De fato, é a venda de bebida alcoólica que está por trás da essencialidade desse comércio.

Desculpe governador – e até compreendo a angustia dos comerciantes e o anseio pela reabertura da economia – mas neste momento, o essencial mesmo seria reduzir a possibilidade desses ‘passeios’ em locais de compras, para diminuir a força e o tempo dessa pandemia, e tudo voltar ao normal o mais rápido possível.

Jogo duro

Nesse momento, o que precisa é estabelecer maior rigidez no controle de fluxo, higienização e proteção nos ambientes de mercados e feiras livres, e com fiscalização (como se faz nos supermercados); jogar duro em relação ao uso de máscaras e ao distanciamento social; e combater artifícios de alguns comerciantes que de uma hora para outra encheram as prateleiras de produtos essenciais para burlar o decreto, abrir e vender de tudo, atraindo gente para as ruas.

Nos pontos de ônibus, aglomerações de quem depende do transporte coletivo

Já basta quem tem mesmo que sair de casa por dever de ofício: os comerciários que atuam nesses estabelecimentos e que se expõem diariamente ao risco de contágio do Covid-19; os bancários que atuam no pagamento dos benefícios sociais; motoristas e cobradores do transporte público; pessoal da limpeza; jornalistas; profissionais da Saúde e da Segurança, entre outros.

Até porque, entra decreto e sai decreto, mas persistem situações que mereciam uma atenção especial do governo na cobrança de soluções, mesmo sendo responsabilidade de outras instâncias do Executivo, como o problema dos transportes públicos, por exemplo. Em Maceió, a SMTT tentou resolver a superlotação dos ônibus, mas acabou transferindo-a para os terminais e pontos de parada. É só dar uma olhada ao redor e ver a quantidade de gente que se aglomera nos pontos de ônibus.

Assim é também nas filas das agências e correspondentes bancários da Caixa, devido à concentração dos servidos de pagamento de benefícios. Precisa cobrar do governo federal a descentralização desse serviço para outros bancos, como forma de reduzir as aglomerações que propiciam a disseminação do vírus. Alguém já pensou que o aumento assustador dos casos de coronavírus pode ter aí uma de suas raízes?

É bom pensar. Enquanto existir motivo para aglomeração, o vírus vai vencendo essa batalha de vida e de morte.

2 Comments

  • Avatar Sincero

    Acho que deve ser feito o isolamento, mas algumas coisas precisam ser revistas. Barbearia não aglomera nada, papelaria manter aberta sim. Defendo que abram os shoppings, mas todos ciriculando mascarados e colaboradores com elas e de luvas. A economia precisa de um suporte maior.

  • Avatar Henrique Moura

    Material Fantástico. Concordando com tudo. As pessoas só querem um motivo pra sair de casa e brechas é o que não faltam nesses decretos

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