1 de abril de 2020Informação, independência e credibilidade
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Ônibus mais caro: O presente de grego no pacote festivo do Natal de Maceió

Foto: Pei Fon/ Secom Maceió

Sim, foi um Natal iluminado em Maceió, literalmente. A cidade se enfeitou de luzes e cores;  nota 10 para a decoração, para a temática (Natal dos Folguedos), para a programação, valorizando o nosso folclore e os nossos artistas. Até os ônibus que fazem o transporte coletivo urbano se encheram de luzes.

Mas essa história de aumento da passagem no meio da festa, ainda no soar das badaladas dos sinos de Belém, foi bola fora; chute no Papai Noel.

Fico imaginando o prazer do trabalhador assalariado a pegar a rota do ponto de ônibus, após um dia de trabalho pesado; ficar sob a proteção de um abrigo confortável esperando o transporte que não demora a chegar; sentar confortavelmente naquela cadeira macia e viajar a caminho de casa, visualizando as belas paisagens da nossa cidade, sentindo aquele friozinho do ar-condicionado para aliviar a temperatura ambiente (que anda torrando, viu!).

– Acorda! Isso é apenas um sonho em tempos de Natal, ou coisa de Papai Noel, que a essas alturas já se mandou, em seu trenó geladinho, pras terras do Pólo Norte!

A realidade por aqui é bem diferente e inclui, na maioria das vezes, esperas prolongadas, ao relento, onde a única proteção é a sombra de um poste com uma placa identificando “ponto de ônibus”, às vezes em locais ermos, sem segurança e sequer iluminação para dar mais proteção aos usuários. Abrigo, mesmo, daqueles que aliviam o efeito do sol ou da chuva, tem poucos. E ônibus confortáveis, também. Há exceções, claro. Mas na verdade, grande parte da frota que atende a cidade de Maceió está desgastada. Uma simples fiscalização promovida recentemente pela Arsal foi o suficiente para detectar uma série de irregularidades e determinar o recolhimento de alguns veículos de empresas que atuam no serviço de transporte público no município de Maceió.

E olha que renovação de frota é argumento forte dos empresários na hora de apresentar a planilha de custos com que justificam a reivindicação de reajuste da passagem.

Mas, antes disso, vamos às reclamações mais reincidentes dos clientes (sim, vamos chamar de clientes os usuários que pagam – caro – pela passagem de ônibus). Muitos se queixam que, em dias de chuva, finais de semana, feriados, os ônibus simplesmente somem da rota. A impressão é de que a frota é reduzida pela metade. Procede?

Não deveria. Apesar dos transtornos causados pela chuva; apesar da suposta redução de uso nesses dias, os trabalhadores que de fato dependem do transporte coletivo têm que trabalhar e com os mesmos horários a cumprir, faça chuva ou faça sol, e estão sujeitos a descontos por falta ou atraso no trabalho. Portanto, essa economia das empresas é sinônimo de prejuízo certo para os usuários.

Mais queixa? Passar pelas catracas apertadas e tentar segurar firme quando o pé do motorista cai pesado no acelerador ou no freio é um exercício forçado de equilíbrio que nem todos aguentam. Ainda mais agora, que pelo mesmo motivo – de economia – os empresários estão, cada vez mais, eliminando a figura do cobrador – que recebia o dinheiro, passava o troco e facilitava a passagem de pacotes pelas catracas.

E só as autoridades – talvez por não precisarem andar de ônibus – não vêm o perigo e o transtorno que é, o motorista dirigindo, recebendo a passagem e passando troco ao mesmo tempo.

Tudo isso deveria servir para baixar o preço da tarifa, como defende o Comitê pela Redução, constituído por 34 representações dos movimentos sociais, incluindo entidades estudantis e de trabalhadores. Mas não! A Economia que conta é a empresarial. Ofuscado pelas luzes do Natal, embalado, disfarçadamente, como presente de grego, no pacote festivo de Papai Noel – que não tem nada a ver com essa história – o que chegou para o usuário foi um aumento de 12% na passagem de ônibus, aprovado pelo Conselho Municipal de Trânsito, ainda na ressaca do Natal, no dia 26 de dezembro. Quase pega Papai Noel de surpresa.

Caso seja sancionado pelo prefeito Rui Palmeira, esse reajuste vai elevar o valor da passagem de ônibus para R$ 4,10.

Vale lembrar que os trabalhadores que ganham o salário mínimo terão um aumento de apenas 3,3% em 2020. Outros, nem isso. Ou seja, os usuários terão que desfalcar o orçamento, que já é apertado, para completar os 8,7% que faltam nessa conta que define um aumento de 12% para a passagem.

Reações se iniciam. O Comitê pela Redução promete resistir e já se reuniu com o Ministério Público Estadual, que na sexta-feira (27) manifestou posição contrária ao aumento e informou que vai marcar uma audiência para o dia 7 de janeiro, para discutir o assunto com a Prefeitura, os empresários e o Comitê. Tomara que consigam reverter.

Enquanto isso, vamos preparando o bolso, que lá vem mais aumento: O do IPTU já está no prelo. Mas isso é outra história. Que Papai Noel nem esperou para ouvir.

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