9 de abril de 2020Informação, independência e credibilidade
Artigo

Pinheiro XV: Um ano de dificultosa travessia

“Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos”

 

*Por Eliana Cavalcanti

Comecei o ano de 2019, como sempre, com muitas esperanças. Já em janeiro, a notícia avassaladora sobre os problemas do bairro do Pinheiro nublou a minha mente e chicoteou a minha alma. Como reagir a tão desastrosa realidade?

Resolvi, então,como foliona que sou, passar o carnaval em Recife. Só dois dias já seriam suficientes.“Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço”. Assim que cheguei ao Marco Zero, olhando para o cais, percebi que as esculturas de Brennand estavam no escuro.
Que absurdo, pensei! E tei bei, caí de costas, pois, desligada como sou, tropecei numa mureta. Perdi meu carnaval. Voltei para casa com uma fratura no úmero e um rompimento parcial num ligamento do ombro. Foram dois meses de fisioterapia, somados à mudança do Ballet Eliana Cavalcanti para dentro da Escola Monteiro Lobato: dias de muita preocupação e noites de insônia. Como deixar para trás um
prédio construído especialmente para ser escola de dança, com 38 anos de história?

Prejuízo econômico, sentimental e histórico.

E a Braskem, silenciosa, tentando driblar as evidências. Depois, a nuvem negra foi se achegando a outros bairros: Mutange, Bebedouro e Bom Parto, atingindo 45 mil pessoas. Claro que esse gigantesco desastre, provindo da mineração de sal gema, tem muitos outros culpados, cúmplices ou aliados, numa ganância exacerbada. Grande parte da sociedade alagoana, conhecida como gente da boca miúda (quando só se fala ou comenta em segredo ou nos bastidores), faz de conta que essa história está se passando lá no Cazaquistão ou na Nova Zelândia.

Logo no início do ano, foi criada a Associação dos Empreendedores no bairro do Pinheiro. As reuniões semanais, na sede do Colégio Santa Amélia, ora abrandavam, ora aguçavam o sofrimento de todos os seus associados. Hoje, com o barco velejando com
mais vagar, as reuniões estão mais escassas. Mas não estamos mortos!

A luta continua, é claro. Contudo, a Braskem começa a reconhecer a sua dolorosa culpa. Que bom! Esperamos que a Justiça se faça presente. Estamos cansados!

Hoje, vi um estudioso em astrologia dizer que o ariano tem cinco boas características: iniciativa, coragem, liderança, autoconfiança e independência. Está aí a minha marca. Sou dura na queda. A família, meu esteio, continua unida e com saúde, graças a Deus. A nossa escola apresentou, com grande sucesso, o espetáculo “O Quebra-Nozes”. Pra completar, comemorei junto aos meus colegas acadêmicos os cem anos da gloriosa Academia Alagoana de Letras, e ainda participei do carro alegórico dos Patrimônios Vivos de Alagoas, no Cortejo Cultural organizado pela Fundação Municipal de Ação Cultural, num desfile pela bela orla de Maceió.

Que venha 2020, inaugurando a nova sede da nossa escola, no bairro da Gruta. Um ciclo se fecha. Que o outro venha abençoado. Só peço a Deus, todos os dias: “Senhor, aumentai a minha fé em Vós, e dai-me forças para lutar!”

Concluo citando Saramago:  “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não
existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir”. Feliz 2020!

*Eliana Cavalcanti é bailarina, escritora, membro da Academia Alagoana de Letras e resistente na luta direitos das vítimas do bairro do Pinheiros

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