2 de junho de 2020Informação, independência e credibilidade
Artigo

Planejando 2022, Lula parece não ter entendido ainda a situação do PT

Em busca de redenção, ex-presidente ignora a força do anti-petismo e com isso fortalece opositores

Nesta semana, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva se fez mais presente ainda como oposição ao governo Bolsonaro. E em sua atividade crescente, que incluiu a participação de seu partido, o PT, em mais um pedido de impeachment contra Jair Bolsonaro, falou uma imensa besteira. E no planejamento político para 2022, pode ter cometido mais um erro.

Primeiro: nesta semana, Lula agradeceu à natureza pela criação do “monstro chamado coronavírus”, pois, “ainda bem”, segundo ele, permitiria “que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar, que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”.

Ele politizou o vírus. E como foi uma atitude semelhante ao de seu antagonista político, o presidente Jair Bolsonaro (que disse que se a direita toma cloroquina, a esquerda ficaria com tubaína), as críticas surgiram até mesmo de apoiadores.

Logo depois, o petista se desculpou “se algum dos 200 milhões de brasileiros ficou ofendido”. Mas se for observado, é justamente uma “desculpa não-desculpa”.

Ele não admitiu o erro, de forma geral, ao sugerir uma oportunidade política com o vírus, mas de forma contida. Foi direcionada somente àqueles que não se ofenderam. Talvez os extremamente anti-direita?

Entra então o jogo político, para a sucessão presidencial disputada em 2022. E no que pode ter sido mais um erro do mandatário do PT, em clara busca de redenção, ele tomou pra si, mais uma vez, o papel de salvador da Pátria.

Lula já descartou apoiar Marina Silva ou Ciro Gomes, dois anos antes do início da disputa. Referência na esquerda brasileira, o ex-presidente parece não aceitar seu partido em outro papel que não o de protagonista.

Lula quer ser o Messias que salvará o País da ingerência política. E se alguém vem observando atentamente o que vem acontecendo nos últimos anos, um nome salvador não é o que o Brasil precisa.

Mas e o PT?

Apesar deste enredo ter diversas versões, a estrutura central da história deve ser clara para todos:

  • Lula foi presidente durante 8 anos, e sua sucessora Dilma Roussef por 5,5, até sofrer um impeachment;
  • A Lava Jato identificou desvios de estatais e o PT foi relacionado aos maiores desvios de verba;
  • Lula foi condenado e impedido de disputar as eleições, onde era franco favorito;
  • Fernando Haddad foi lançado como candidato do PT. E com a esquerda pulverizada, um candidato de direita se fortaleceu;
  • Anti-petista, Bolsonaro venceu as eleições e chamou Moro, juiz da Lava jato que prendeu Lula, como ministro da Justiça;
  • Quem é oposição ao atual governo é chamado de petista ou comunista;
  • A operação da Lava Jato arrefece, sofre denúncias de corrupção. Lula recebe liberdade provisória;
  • Há um grave erro no caso da finada esposa de Lula: dona Marisa não tinha 256 milhões de reais em sua conta, mas apenas R$ 26 mil.

Este é um resumo do resumo do que teria acontecido. E é importante observar que há sim indícios de que o caso contra Lula poderia ter sido fabricado Pelo menos em alguns pontos. Especialmente após a indicação de Sergio Moro e o erro crasso na conta de Dona Marisa.

E se há a possibilidade desse erro, é possível observar em Lula uma vontade de reparar esse erro. De vindicação. Pelos anos presos, por não ter podido ir ao enterro do irmão, pelas piadas que fizeram com a morte de seu neto, pelo AVC sofrido por Dona Marisa, que segundo ele morreu de tristeza.

Lula foi carregado por seus apoiadores no dia seguinte à sua saída da prisão

É compreensível ele esperar por um arco de redenção, como salvador da pátria, adorado pelo povo. Sua imagem no Twitter é de uma foto sensacional, vista de cima, abraçado pelo povo, como a Khaleesi em Game of Thrones. Lula quer de novo se jogar aos braços do povo.

Mas ele precisa aceitar uma coisa: assim como não vai viver até os 120 anos, talvez o projeto PT tenha sido minado demais para querer tomar protagonismo da oposição no Brasil de hoje.

O Plano Lula, aliás, aplica um salvador da pátria exatamente como faz quem ele critica. E estes usarão como contra-ataque. A partir de agora e em peso em 2022.

Aos que esperavam um enfraquecimento do atual governo para as próximas eleições, já deve imaginar bolsonaristas empolgados com os movimentos do tabuleiro de Lula.

Mesmo anos após o governo petista ter acabado, militantes de Bolsonaro ainda perguntam pelo PT, ou mesmo qualquer contra-argumento à atual corrupção vem com aquela pergunta batida de sempre (mas e o petê?). Imagina com o partido querendo voltar ao protagonismo político quão forte isso não voltaria?

Ao que parece, o ex-presidente ainda não entendeu: mesmo que ele veja tudo como uma injustiça, como algo que precisa ser reparado, por hora, o PT não voltará ao que foi antes. Seu partido não tem condições, no Brasil de hoje, de tomar protagonismo na oposição.

Mesmo para os que acham absurdo os impropérios de Bolsonaro, que praticamente todo dia toma uma ação não palaciana em seu governo, é importante frisar que, apenas, mais forte que o bolsonarismo é o movimento do antipetismo.

Alimentando durante anos, o ódio ao PT conseguiu rachar a base da direita, como visto após a saída do juiz Sergio Moro – curiosamente, moristas e bolsonaristas chamam uns aos outros de petistas. E isso é uma coisa: ex-aliados de Bolsonaro o criticam hoje por agir com uma atitude ‘bolsopetista‘. Seja lá o que isso queira dizer.

Isso é muito fácil de identificar nos números do 2º turno das eleições. As pesquisas indicavam que apenas Ciro Gomes venceria Bolsonaro. Mesmo este estando atrás de Haddad no primeiro turno. Ou seja, a rejeição ao candidato petista era enorme.

Não deu outra: Bolsonaro foi eleito com quase 58,8 milhões de votos, bem à frente de Haddad, que teve 47 milhões. Em porcentagem, 55,13% contra 44,87. E um sinal de alerta foi dado com os demais votos:

  • Quase 2,5 milhões fizeram questão de votar branco (2,14%);
  • Mais de 8,6 milhões anularam seu voto (7,43%);
  • E absurdos 31,3 milhões não votaram (21,3%).

A diferença de votos entre Bolsonaro e Haddad fora de quase 12 milhões. Entre os que não escolheram nenhum dos dois, foram 42 milhões. 42 milhões que preferiram não votar em nenhum dos dois, possivelmente, por vê-los como extremos de uma mesma moeda.

E este filme pode ser repetido de novo. Esteja Bolsonaro apto ou não a se reeleger em 2022, o ‘Plano Lula’ já favorece ele ou qualquer partido mais alinhado à direita. Wilson Witzel, João Doria, Sergio Moro ou mesmo Jair Bolsonaro de novo: com a esquerda rachada e o PT lutando pelo protagonismo mais uma vez, a história vai se repetir.

Lula e seus aliados precisam aceitar que o golpe desferido neles foi muito forte. E que seu maior inimigo não são os bolsonaristas, moristas ou qualquer outro “nome direitista”. São os anti-petistas. E estes devem se encontrar até entre esquerdistas, vide a omissão nas eleições de 2022.

Se for para um partido de esquerda querer conquistar algo nas próximas eleições, a dica diante das evidências é clara: nem Lula, nem o PT pode agir como protagonistas.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.