11 de agosto de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Protestando contra censura, artistas são agredidos no Festival de Gramado

Artistas foram alvo de vaias, restos de comida e pedras de gelo durante a passagem pelo tapete vermelho

Artistas protestam no tapete vermelho antes de cerimônia de premiação do Festival de Gramado | Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto

Artistas que protestavam contra os cortes de recursos para a Cultura, e contra as mudanças na Agência Nacional do Cinema (Ancine) promovidos pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL), artistas foram alvo de vaias, restos de comida e pedras de gelo durante a passagem pelo tapete vermelho na 47ª edição do Festival de Gramado.

Eles passaram pelo tapete vermelho do Palácio dos Festivais com uma grande faixa com os dizeres “pelo cinema” e “contra a censura”. A reação do público é explicada pelos resultados das eleições presidenciais em Gramado: Bolsonaro recebeu 82,5% dos votos válidos, contra 17,5% de Fernando Haddad (PT).

Apesar disso tudo, a cerimônia foi marcada por novas manifestações de resistência. Durante a foto dos vencedores do Prêmio Kikito, foi estendida uma faixa com os dizeres: “Pelo cinema LGBT”.

Censuras

Desde que assumiu seu mandato, Bolsonaro tem criticado diretamente a produção de cinema nacional e ameaçado influenciar diretamente quais filmes podem ou não captar recursos públicos.

Em “live” publicada nas redes sociais no dia 15 de agosto, ele disse que o governo “garimpou” filmes com a temática LGBT que estavam prontos para captar recursos via leis de incentivo e determinou que não sejam liberadas verbas para os filmes.

Carta de Gramado

A Carta de Gramado, documento que tradicionalmente é lido ao final do festival, assinada por 63 entidades, destacou a importância do cinema para a cultura e autoestima de um país, assim como sua relevância na economia nacional. Confira ela na íntegra:

Profissionais e entidades representativas do Audiovisual Brasileiro vêm se manifestar em apoio à manutenção e ao fortalecimento das políticas públicas para o desenvolvimento do setor.

Apoiamos a permanência e independência da Ancine, agência responsável pelas políticas públicas de fomento e regulamentação, cada vez mais ativa, livre e desburocratizada, com foco no desenvolvimento de uma cinematografia forte, capaz de representar o Brasil em toda a sua diversidade.

Apoiamos o Fundo Setorial do Audiovisual, a sua vinculação à Ancine e a nomeação do Comitê Gestor. Seus recursos são gerados pelo próprio setor de forma autossustentável.

Apoiamos a Lei da TV Paga (12.485), pelo seu papel decisivo no crescimento do setor e por facilitar o acesso da população ao conteúdo nacional independente.

Reivindicamos a renovação da Cota de Tela cujo decreto para o ano de 2019 ainda não foi assinado pelo governo brasileiro.

Reivindicamos a renovação do RECINE e da Lei do Audiovisual, antes da sua expiração em dezembro deste ano.

Apoiamos a regulação do VOD, que precisa estabelecer as bases deste novo mercado e integrar este segmento às políticas de estímulo à produção nacional.

Contestamos a Portaria 1.576, de 20 de agosto, que suspende os termos do Edital de Chamamento das TVs Públicas publicada ontem (21 de agosto).

Repudiamos qualquer ataque a qualquer tipo de censura que atenta à liberdade de expressão e fere os preceitos constitucionais garantidos pelo Art. 5º da Constituição.

O audiovisual brasileiro vive o seu melhor momento, com reconhecimento dentro e fora do país. A nossa cadeia produtiva é dinâmica e movimenta mais de 25 bilhões de reais por ano, representando o,46% do PIB brasileiro, tem uma taxa de crescimento de 8,8% ao ano e é responsável por mais de 330 mil empregos.

Garantir o audiovisual fortalecido e livre é fundamental para a soberania nacional.

Gramado, 22 de agosto de 2019.

Assinam a carta Conexões Gramado Film Market e 47º Festival de Cinema de Gramado

 

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