7 de dezembro de 2019Informação, independência e credibilidade
Alagoas

Viva o livro! O poder transformador da leitura mudando um destino

A história de Davi, um jovem vendedor de caldo de cana, e seu amor pelos livros, na ótica sensível da jornalista Carla Serqueira.

Fotos cedidas por Carla Serqueira

A vida de todos nós é marcada por acontecimentos. São eles que compõem a nossa história e fundamentam nossas escolhas. Aos 23 anos, o jovem Davi Chicuta tem uma rotina igual à de muitos jovens da sua idade, que ainda não conseguiram espaço no mercado formal de trabalho. Garante seu sustento e o da mãe vendendo caldo de cana num carrinho de lanche, na Praça São Francisco, no bairro de Cruz das Almas, em Maceió.

Poderia ter mergulhado no mundo da criminalidade, por onde andou na adolescência e por onde enveredaram tantos amigos; poderia ter permanecido anônimo, apenas como mais um vendedor ambulante no caminho nosso de cada dia; poderia nunca ter tido a chance de contar a sua história de superação. Mas ele tem um diferencial que chama a atenção: Seu gosto pela leitura. Davi passa o dia lendo, ali mesmo, na praça, enquanto espera os clientes do caldo de cana.

E foi assim que ele saiu da invisibilidade, graças à sensibilidade da jornalista Carla Serqueira, que passa todos os dias pela praça e de tanto ver aquele menino lendo, não conteve a santa curiosidade de repórter. Parou para ouvir a história daquele rapaz que consome livros. E, o que é melhor: nos presenteou com esse texto lindo e emocionante, que aqui reproduzimos, com a sua autorização:

A história de Davi / por Carla Serqueira 

(*) – Sempre tive vontade de parar e falar com ele. Vendedor de caldo de cana, não teve uma vez que passei e não estivesse lendo. Seu carrinho de lanches fica na Pracinha São Francisco, na Cruz das Almas, no caminho da escola de meu filho. Eu gostava de ver sua entrega às páginas, à espera de algum cliente, na sombra da árvore. O que ele está lendo? Que histórias fazem seu passatempo? Será que ele sabe que é raridade? Afinal, quantas pessoas vemos lendo na rua? Primeiro me vem admiração, depois me mordo de curiosidade.

Sempre quis puxar conversa, mas sol quente, hora de almoço, filho à tiracolo, ainda supermercado, deixava passar. Também tinha medo de ser invasiva, de atrapalhar. Deixava para outro dia e toda vez me arrependia, toda vez eu repetia: um dia vou parar. Na sexta-feira eu parei. Tinha meia hora para o filho largar, calor danado, lembrei do caldo, pensei no leitor, fui até lá. – Quanto é o caldo? – Tem de dois e cinquenta e de três. Pedi logo o grande. – E esse livro? – Tô já acabando. Falta 17%. – Como você sabe que falta 17%? – Eu tenho um aplicativo. – Ahhh…

E a conversa finalmente aconteceu. Na despedida, perguntei se podia contar sua história aqui, pedi para fazer as fotos. Davi Chicuta, 23, sorriu, não se importou. Pedi um papel para anotar alguns dados, ele me arranjou guardanapos. Ouvi um relato sobre o livro como terapia, companheiro de trabalho, um salvador. A vida de Davi, jovem negro da periferia, era de luta, sacrifícios e tráfico. Aos 8 anos, começou o batente no carrinho, primeiro com a mãe, e de uns anos para cá sozinho. – Minha mãe agora tem problema de saúde.
Ele parou de estudar aos 16 anos, sem saber ler. – Eu tava na bagunça. Só aprendi a ler direito com 19 anos, quando fiz o EJA. (Educação de Jovens e Adultos).

E desde que Davi desvendou a leitura, já se foram 75 livros lidos. – E onde você consegue os livros? – Troco em sebo, pego com os amigos, algumas vezes eu compro. Mas eu gosto de sebo, é bem mais barato. – O que você gosta de ler? Esse aí, por exemplo, é sobre o quê? – Esse é de enigmas. – É um livro grande!, comentei. Ele se orgulhou: – Tem quase 430 páginas. Mas gosto mesmo de ficção científica. – Tem um autor preferido? – Dan Brown, disse, sem pestanejar.

Davi contou que na adolescência se envolveu num crime, teve depressão, enfrentou a esquizofrenia, entrou para o tráfico. – São coisas pesadas, nem todo mundo consegue sair. Como você conseguiu? – Primeiramente, minha mãezinha. Eu chegava em casa, ela chorando, apertava o coração.
Uma lembrança do tempo da escola também é para ele inspiração. Davi não recorda mais o nome, mas o amor da professora pelo livro até hoje lhe arranca sorriso. – Eu tava na bagunça já, mas metade de mim queria ficar na aula dela. Ela interpretava tão bem os textos que aquilo me encantou.

Perguntei se ele sabia que estava rolando a Bienal. Seus olhos cresceram: – Eu vou domingo. Quero ver se acho livro baratinho, de dez reais. Davi está no segundo ano do ensino médio, vai fazer o Enem ano que vem. Seu interesse é por mecânica. – E se você falasse da leitura com seus amigos, para incentivá-los também, o que diria? – Problema é que pra muita gente conselho não é solução, então não adianta.

Davi está focado nas metas. Ele quer completar 80 livros lidos até o final do ano. – Ano que vem quero ler pelo menos 20 livros para completar 100 em quatro anos de leitura.

Para Davi, vencer as páginas parece ser a forma mais segura e prazerosa de avançar na vida, de afastar-se cada vez mais, todo dia alguns percentuais, do mundo sem as letras que há tão pouco tempo o enclausurava. Que nunca lhe faltem livros, que ele tenha bons referenciais. Que Davi e muitos outros fascinados por livros sejam vistos, incentivados, aplaudidos por fazer da leitura resistência na guerra pesada pela vida daqueles empurrados para as margens.

E que tudo isso contribua com um mundo com menos armas, com mais prazer e alegria para juventude, como bem disse Lula, e com mais páginas lidas na sombra de uma árvore.

#bienalalagoas na rua! Com mais Davis a encher o Jaraguá.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.